Passagens sobre Fatalidade

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Frases sobre fatalidade, poemas sobre fatalidade e outras passagens sobre fatalidade para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Escolher a Felicidade

Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se d√£o. Est√°-se aqui t√£o sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo geral no viver, em que a √ļnica companhia poss√≠vel √© a daquele Deus a um tempo imanente e transcendente e a dos que neles est√£o, a de seus santos. Felicidade ou paz n√≥s as constru√≠mos ou destru√≠mos: aqui o nosso livre-arb√≠trio supera a fatalidade do mundo f√≠sico e do mundo do proceder e toda a experi√™ncia que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a podemos transformar em positiva. Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que √© na realidade extremamente dif√≠cil e que n√£o atingiremos nunca por nossas pr√≥prias for√ßas: exige-se de n√≥s, primacialmente, a humildade; a gratid√£o pelo que vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exerc√≠cio; a firmeza e a serenidade do capit√£o de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme n√£o a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se como uma crian√ßa a quem sabe o caminho. De qualquer forma, no fundo de tudo, o que h√° √© um acto de decis√£o individual,

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Leitor e Autor, num Mundo √° Parte

Ler um livro √© desinteressar-se a gente deste mundo comum e objectivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que √© o sumidouro da vida subjectiva. √Ārvores ramalham. De vez em quando passam passos. L√° no alto estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do c√≠rculo claro da l√£mpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo, est√° suspenso no ponto ideal de uma outra dimens√£o, al√©m do tempo e do espa√ßo. No tapete voador s√≥ h√° lugar para dois passageiros: leitor e autor.

O Sarcófago

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… √Č frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcófago, ereto e imóvel sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível
Que em toda a sua m√°scara se expande,
√Ä humana como√ß√£o impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

O Sábio Face à Vida

Existe acaso algu√©m a quem possas colocar acima do s√°bio? O s√°bio tem, sobre os deuses, opini√Ķes piedosas. N√£o teme a morte em momento nenhum, considera-a o fim normal da natureza, julga que o termo dos bens √© f√°cil de atingir e de possuir, sabe que os males t√™m uma dura√ß√£o e uma gravidade limitadas; sabe o que √© mister pensar da fatalidade, da qual se constuma fazer uma ama desp√≥tica. Sabe que os acontecimentos nascem, uns da fortuna, outros de n√≥s pr√≥prios, porque a fatalidade √© cega e a fortuna inconstante; que o que vem de n√≥s n√£o est√° submisso a nenhuma tirania, sujeito a reproche e a elogio.
Com efeito, melhor fora acreditar nas narrativas mitol√≥gicas sobre os deuses que tornar-se escravo da fatalidade dos f√≠sicos. A mitologia consente a esperan√ßa de que, honrando os deuses, poderemos disp√ī-los a nosso favor, enquanto a fatalidade √© inexor√°vel. O s√°bio n√£o cr√™, como o vulgo, que a fortuna seja uma divindade, pois um deus n√£o pode agir de maneira desordenada. Nem √©, para ele, uma causa, dada a sua instabilidade. N√£o a admite como causa do bem e do mal, ou da vida feliz; n√£o obstante, sabe que pode trazer grandes bens ou grandes males.

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Quem definirá um dia essa Maldade obscura e misteriosa das coisas, que inspirou aos gregos a concepção indecisa da Fatalidade?

A Fraqueza do Idealismo

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresist√≠veis teimas f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc,etc; a arte convencional, enfim, mutila o homem moral – como a ci√™ncia convencional mutila o homem f√≠sico; s√£o ambas aprovadas pelos Monsenhores arcebispos de Paris e dadas em leitura nos col√©gios; mas uma ensina falso, como a outra educa falso: ambas nocivas portanto.

O Objectivo e o Subjectivo

Representamos o objectivo e o subjectivo, a quantidade e a qualidade, o n√ļmero cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a m√ļsica das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cen√°rio s√≥lido, l√≠quido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; – tr√™s virtudes do f√īlego animado, porque muda o que come, em sensa√ß√Ķes, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme √© l√≠mpido o ar ou enevoado… √Č de s√≥lida origem a sensa√ß√£o; o sentimento √© j√° de origem fluidica; e, ent√£o, o pensamento √© s√≥ cor azul ou imagem √≠ntima da luz.

Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Benditos sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade

N√£o h√° amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.

√Č for√ßoso recorrer ao inconceb√≠vel, ao sobrenatural, ao misticismo da provid√™ncia oculta para compreender o que vulgarmente se chama ¬ęfatalidade¬Ľ.

√Č preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem √© o que eu preciso. Sinto-me t√£o desamparada, preciso tanto de prote√ß√£o… porque parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei l√° porque escrevo! Que fatalidade √© esta?

O Criminoso e o que lhe é afim

O tipo do criminoso √© o tipo do homem forte colocado em condi√ß√Ķes desfavor√°veis, um homem forte posto enfermo. O que lhe falta √© a selva virgem, uma natureza e uma forma de existir mais livres e perigosas, nas quais seja leg√≠timo tudo o que no instinto do homem forte √© arma de ataque e de defesa. As suas virtudes foram proscritas pela sociedade: os seus instintos mais en√©rgicos, que lhe s√£o inatos, misturam-se imediatamente com os efeitos depressivos, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta √© quase a f√≥rmula da degenera√ß√£o fisiol√≥gica. Quem tem de fazer √†s escondidas, com uma tens√£o, uma previs√£o, uma ang√ļstia prolongadas, aquilo que melhor pode fazer, o que mais gosta de fazer, torna-se for√ßosamente an√©mico; e como a √ļnica colheita que obt√©m dos seus instintos √© sempre perigo, persegui√ß√£o, calamidades, tamb√©m o seu sentimento se vira contra esses instintos ‚ÄĒ sente-os como uma fatalidade. √Č assim na nossa sociedade, na nossa domesticada, med√≠ocre, castrada sociedade onde um homem vindo da natureza, chegado das montanhas ou das aventuras do mar degenera necessariamente em criminoso.

Falsos valores e palavras ilusórias: são estes os piores monstros para os mortais; longamente e à espera, dorme neles a fatalidade.

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc.; irresist√≠veis ¬ęteimas¬Ľ f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc., etc.

A Palavra Secreta

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras at√© se tornarem o mais fino inv√≥lucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o tra√ßo de um escultor √© identific√°vel por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo ‚Äď √© por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade.

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As Nossas Possibilidades de Felicidade

√Č simplesmente o princ√≠pio do prazer que tra√ßa o programa do objectivo da vida. Este princ√≠pio domina a opera√ß√£o do aparelho mental desde o princ√≠pio; n√£o pode haver d√ļvida quanto √† sua efici√™ncia, e no entanto o seu programa est√° em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo como com o microcosmo. N√£o pode simplesmente ser executado porque toda a constitui√ß√£o das coisas est√° contra ele; poder√≠amos dizer que a inten√ß√£o de que o homem fosse feliz n√£o estava inclu√≠da no esquema da Cria√ß√£o. Aquilo a que se chama felicidade no seu sentido mais restrito vem da satisfa√ß√£o ‚ÄĒ frequentemente instant√Ęnea ‚ÄĒ de necessidades reprimidas que atingiram uma grande intensidade, e que pela sua natureza s√≥ podem ser uma experi√™ncia transit√≥ria. Quando uma condi√ß√£o desejada pelo princ√≠pio do prazer √© protelada, tem como resultado uma sensa√ß√£o de consolo moderado; somos constitu√≠dos de tal forma que conseguirmos ter prazer intenso em contrastes, e muito menos nos pr√≥prios estados intensos. As nossas possibilidades de felicidade s√£o assim limitadas desde o princ√≠pio pela nossa forma√ß√£o. √Č muito mais f√°cil ser infeliz.
O sofrimento tem três procedências: o nosso corpo, que está destinado à decadência e dissolução e nem sequer pode passar sem a ansiedade e a dor como sinais de perigo;

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Os Professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que √© trabalhado pelos professores n√£o pode ser quantificado. N√£o h√° n√ļmeros ou casas decimais com suficiente precis√£o para medi-lo. A falta de quantifica√ß√£o n√£o √© culpa dos assuntos inquantific√°veis, √© culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores n√£o vendem o material que trabalham, oferecem-no. N√≥s, com o tempo, com os anos, com a dist√Ęncia entre n√≥s e n√≥s, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material √© nosso, achamos que n√≥s pr√≥prios somos esse material. Por ironia ou capricho, √© nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva.

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Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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N√£o h√° uma fatalidade exterior. Mas existe uma fatalidade interior: h√° sempre um minuto em que nos descobrimos vulner√°veis; ent√£o, os erros atraem-nos como uma vertigem.

A Fatalidade do N√£o

A palavra de que eu gosto mais √© n√£o. Chega sempre um momento na nossa vida em que √© necess√°rio dizer n√£o. O n√£o √© a √ļnica coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que √© tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. √Č o momento em que √© necess√°rio dizer n√£o. A fatalidade do n√£o – ou a nossa pr√≥pria fatalidade – √© que n√£o h√° nenhum n√£o que n√£o se converta em sim. Ele √© absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.

. Paulo (1991)’