Passagens sobre Olhados

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Frases sobre olhados, poemas sobre olhados e outras passagens sobre olhados para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Saber Resolver Problemas

Há pessoas que têm dificuldade em identificar os seus problemas. Usando de uma grande capacidade de adaptação, vão-se habituando a que as coisas lhes estejam a correr menos bem, sem conseguirem perceber exactamente qual o ou os problemas que os apoquentam.
Mas também existe quem tenha tendência para pensar que o problema não é seu. Percebem que ele existe, identificam-no, mas comportam-se com alguma indiferença, como se o problema fosse dos outros, não assumindo a sua responsabilidade.
H√° ainda quem fique √† espera que os problemas se resolvam por si, ou que algu√©m lhos resolva. Embora consigam identific√°-los e reconhec√™-los como seus, parecem considerar que compete a outros ‚ÄĒ familiares, amigos, colegas ‚ÄĒ ou √† sociedade em geral resolv√™-los.
Assim como existe quem, em vez de se dedicar a procurar solução para os seus problemas, concentrando neles a sua atenção e canalizando para a sua resolução a energia possível, prefira desenvolver práticas místicas, pretendendo que uma ou várias entidades mais ou menos divinas façam o que afinal lhes compete a eles próprios fazer.

Um problema √© uma coisa dif√≠cil de compreender, explicar ou resolver. √Č tudo aquilo que resiste √† penetra√ß√£o da intelig√™ncia, constituindo uma inc√≥gnita ou dificuldade a resolver.

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Chuva De Ouro

A Rainha desceu do Capitólio
Agora mesmo — vede-lhe o rega√ßo…
Como tem flores, como traz o braço
Farto de jóias, como pisa o sólio

Triunfantemente, numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espa√ßo…
E como desce com bravura de a√ßo…
Pois se a Rainha, como um rico espólio,

O seu brioso coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda est√£o gozando
B√™n√ß√£os mais puras qu’os clar√Ķes diurnos,

Por certo que h√° de vir descendo a escada
Do Capit√≥lio da virtude — olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!

A d√ļvida pode transformar o olhar dos homens numa olhadela maldosa. A sua f√© em como, a sua alegria em porqu√™.

Os seus olhos ganharam brilho num silencioso agradecimento: só é olhado pelo céu quem olha para as estrelas.

Os encontros temperados com um pouco de missa s√£o os melhores. N√£o h√° nada mais mimoso do que uma olhadela que passa por cima de Deus.

Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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Nessa pedra alguém sentou para ver o mar Mas o mar, não parou para ser olhado E foi mar, pra todo lado.

Se A Fortuna Inquieta E Mal Olhada

Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do Céu consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;

pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama.
fizera ao Tejo l√° na p√°tria cama
adormecer co som da lira amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta;

a vossa de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vós ao mundo se apresenta.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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A Celebridade é um Plebeísmo

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade √© um plebe√≠smo. Por isso deve ferir uma alma delicada. √Č um plebe√≠smo porque estar em evid√™ncia, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensa√ß√£o de parentesco exterior com as criaturas que armam esc√Ęndalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas pra√ßas. O homem que se torna c√©lebre fica sem vida √≠ntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida dom√©stica; √© sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas m√≠nimas ac√ß√Ķes – ridiculamente humanas √†s vezes – que ele quereria invis√≠veis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evid√™ncia a sua alma se estraga ou se enfastia. √Č preciso ser muito grosseiro para se poder ser c√©lebre √† vontade.
Depois, al√©m dum plebe√≠smo, a celebridade √© uma contradi√ß√£o. Parecendo que d√° valor e for√ßa √†s criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de g√©nio desconhecido pode gozar a vol√ļpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu g√©nio; e pode, pensando que seria c√©lebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que √© ele pr√≥prio.

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Formatados pela Sociedade

Idealmente, o que deveria ser dito a todas as crian√ßas, repetidamente, ao longo da sua vida escolar, seria algo como isto: ¬ęEst√°s no processo de ser doutrinado. N√≥s ainda n√£o fomos capazes de desenvolver um sistema de educa√ß√£o que n√£o seja um processo de doutrina√ß√£o. Lamentamos, mas √© o melhor que podemos fazer. O que te estamos a ensinar √© uma am√°lgama dos preconceitos actuais e das escolhas desta cultura em particular. Uma pequena olhada na Hist√≥ria vai-te mostrar o quanto estes s√£o tempor√°rios. Est√°s a ser ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamento que foi desenhado pelos seus antecessores. √Č um sistema de auto-perpetua√ß√£o. Aqueles de voc√™s que forem mais robustos e individuais que os outros ser√£o encorajados a sair e a encontrar formas de se educarem a si pr√≥prios ‚Äď a educarem os seus pr√≥prios julgamentos. Aqueles que ficarem t√™m que se lembrar, sempre, e para sempre, que est√£o a ser moldados e modelados para se encaixarem nas necessidades estreitas e particulares desta sociedade¬Ľ.

Sinceridade Proscrita

A verdade permanece sepultada sob as m√°ximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver √† arte de viver com baixeza. N√£o se p√Ķe diferen√ßa entre conhecer o mundo e engan√°-lo; e a cerim√≥nia, que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.
A ingenuidade deixa-se aos esp√≠ritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza √© olhada como um v√≠cio na educa√ß√£o. Nada de pedir que o cora√ß√£o saiba manter o seu lugar; basta que fa√ßamos como os outros. √Č como nos retratos, aos quais n√£o se exige mais do que parecen√ßa. Cr√™-se ter achado o meio de tornar a vida deliciosa, atrav√©s da do√ßura da adula√ß√£o.
Um homem simples que n√£o tem sen√£o a verdade a dizer √© olhado como o perturbador do prazer p√ļblico. Evitam-no, porque n√£o agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque √© amarga; evita-se a sinceridade que professa porque n√£o d√° frutos sen√£o selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais cara das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel, que faz com que nos vejamos t√£o disformes como somos.
Não há por que nos espantarmos, se ela é rara: é expulsa, proscrita por toda a parte.

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O Amor, um Dever de Passagem

Fui envenenado pela dor obscura do Futuro.
Eu sabia j√° que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus l√°bios s√£o feitos desta terra,
s√£o lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do rel√Ęmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
j√° n√£o sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.

A cesura enerva-me no est√īmago
Cortei de manh√£ as pontas dos dedos mas sei j√° que
elas crescer√£o de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.

A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.

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Religião Cósmica

√Č muito dif√≠cil transmitir este sentimento a algu√©m completamente desprovido dele, especialmente porque n√£o lhe corresponde qualquer concep√ß√£o antropom√≥rfica de Deus.
Os g√©nios religiosos de todos os tempos distinguiram-se por possu√≠rem este tipo de sentimento religioso, que n√£o reconhece nenhum dogma nem nenhum deus concebido √† imagem do homem; por isso n√£o pode existir nenhuma igreja cujos ensinamentos centrais se baseiem nele. Logo, √© precisamente entre os her√©ticos de todos os tempos que encontramos homens cheios deste tipo de sentimento religioso e que foram olhados em muitos casos pelos seus contempor√Ęneos como ateus, por vezes tamb√©m como santos. A esta luz, homens como Dem√≥crito, Francisco de Assis e Spinoza s√£o muito parecidos entre si.
Como pode o sentimento religioso cósmico ser comunicado por uma pessoa a outra se não conduz a nenhuma noção definida de Deus e a nenhuma teologia? Na minha perspectiva, a função mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter vivo este sentimento em todos os que sejam receptivos a ele.
Chegamos deste modo a uma concep√ß√£o da rela√ß√£o entre ci√™ncia e religi√£o muito diferente da habitual. Quando consideramos o assunto de um ponto de vista hist√≥rico, somos levados a olhar para a ci√™ncia e para a religi√£o como antagonistas irreconcili√°veis e por raz√Ķes bastante √≥bvias.

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Aqui nessa pedra, alguém sentou para olhar o mar O mar não parou para ser olhado Foi mar pra tudo que é lado

Saber Ler um Poema

– O poema est√° ent√£o centrado em si mesmo, monstruosamente solit√°rio?
– N√£o tem pressa, pode bem esperar que o arranquem da sua solid√£o, possui for√ßas expansivas bastantes, fa√ßam-no sair dali. Mas ou levam-no inteiro com o centro no centro e armado √† vo]ta como um corpo vivo ou n√£o levam nada, nem um fragmento. E o que muitas vezes se faz √© contrabandear bocados: leva-se a parte errada dele na parte errada de n√≥s para qualquer parte errada: filosofia, moral, politica, psican√°lise, lingu√≠stica, simbologia, literatura. Onde est√£o o corpo e a vida dele e a sua integridade? Onde, a solid√£o para escutar a solid√£o daquela voz? Porque √© obrigat√≥rio diz√©-lo: pouca gente tem ouvidos puros. Ou m√£os limpas. Ler um poema √© poder faz√™-lo, refaz√™-lo: eis o espelho, o m√°gico objecto do reconhecimento, o objecto activo de cria√ß√£o do rosto. O eco visual se quanto a rostos fosse apenas l√™-los fora e ver. Porque o mostrado e o visto s√£o a totalidade daquilo que se mostra e v√™ ‚ÄĒ o nome: a revela√ß√£o.
‚ÄĒ N√£o √© um destino assegurado.
‚ÄĒ S√≥ √© seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa transl√ļcida,

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A Ingenuidade Ignorante e a Ingenuidade S√°bia

H√° duas esp√©cies de ingenuidade: uma que ainda n√£o percebeu todos os problemas e ainda n√£o bateu a todas as portas do conhecimento; e outra, de uma esp√©cie mais elevada, que resulta da filosofia que, tendo olhado dentro de todos os problemas e procurado orienta√ß√£o em todas as esferas do conhecimento, chegou √† conclus√£o de que n√£o podemos explicar nada, mas temos de seguir as convic√ß√Ķes cujo valor inerente nos fala de maneira irres√≠stivel.