Passagens sobre Revolta

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Não posso admitir que se olhe para o desemprego como se fosse uma realidade abstracta. O desemprego são desempregados! E um desempregado, sobretudo de longa duração, é um homem que, pouco a pouco, perde a sua autodignidade, perde respeito por si e pelos outros. Num jovem é muito pior: sente que lhe estão a roubar o futuro. E daqui resulta ou a desistência, a passividade, ou a evasão perversa, ou a revolta. Em muitos países as grandes revoltas foram feitas pela juventude, que não aceita que lhe roubem o futuro!

Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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O Pessimismo é Excelente para os Inertes

O Pessimismo √© uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o at√© o tornar uma lei universal, a lei pr√≥pria da Vida; portanto lhe tira o car√°cter pungente de uma injusti√ßa especial, cometida contra o sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho – porque nos sentimos escolhidos e destacados para a Infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo – se toda a humanidade coxeasse? E quais n√£o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado nos c√©us para o envolver a ele unicamente – enquanto em redor toda a humanidade se movesse na benignidade de uma Primavera? (…) O Pessimismo √© excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da In√©rcia.

O amor dos animais contém muito da desaprovação pelos seres humanos e é próprio dum melindroso estado de revolta que não encontrou a sua linguagem.

O Amor Era a Festa do Inimit√°vel

O amor, outrora, era a festa do individual, do inimit√°vel, a gl√≥ria do que √© √ļnico, do que n√£o suporta qualquer repeti√ß√£o. Mas o umbigo n√£o s√≥ n√£o se revolta contra a repeti√ß√£o, √© um apelo √†s repeti√ß√Ķes! Vamos viver, no nosso mil√©nio, sob o signo do umbigo. Sob este signo, somos todos, tanto um como outro, soldados do sexo, com o mesmo olhar fixo n√£o sobre a mulher amada mas sobre o mesmo pequeno buraco no meio da barriga que representa o √ļnico sentido, o √ļnico fim, o √ļnico futuro de todo o desejo er√≥tico.

Os Vencidos

Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas m√£os as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com m√£o potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um solu√ßo: ¬ęAmei e fui amado!
Levou-me uma vis√£o, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo v√īo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paix√£o
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

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Os putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de cal√ß√Ķes, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
√Č a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
S√£o os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na m√£o
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que n√£o
Se a porrada vier n√£o deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pi√£o na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

Sou um sobrevivente como qualquer outro. A arte √© um of√≠cio, uma paix√£o que as pessoas t√™m. O usur√°rio tem uma paix√£o pelo dinheiro e junta o dinheiro para nada ‚Äď √© triste. O artista tende ao absoluto; pode tamb√©m estar numa situa√ß√£o de revolta. N√£o √© exactamente o meu caso, embora muitas vezes me revolte.

Política de Interesse

Em Portugal n√£o h√° ci√™ncia de governar nem h√° ci√™ncia de organizar oposi√ß√£o. Falta igualmente a aptid√£o, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento pol√≠tico das na√ß√Ķes.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A pol√≠tica √© uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contradit√≥rias; ali dominam as m√°s paix√Ķes; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali h√° a posterga√ß√£o dos princ√≠pios e o desprezo dos sentimentos; ali h√° a abdica√ß√£o de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores √°speros; h√° a tristeza e a mis√©ria; dentro h√° a corrup√ß√£o, o patrono, o privil√©gio. A refrega √© dura; combate-se, atrai√ßoa-se, brada-se, foge-se, destr√≥i-se, corrompe-se. Todos os desperd√≠cios, todas as viol√™ncias, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
√Ä escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (…) todos querem penetrar na arena,

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Somos a Resposta que Damos ao que Nos Acontece

Somos frágeis. A vida é dura. Não somos o que nos acontece.

H√° pesos que n√£o podemos rejeitar. Toda a revolta seria t√£o ilus√≥ria quanto in√ļtil. Mas n√£o devemos ficar pela simples resigna√ß√£o, √© preciso que assumamos esses pesos e os queiramos levar de vencidos. Que escolhamos ser quem somos, apesar deles. Com eles. Neles.

Somos a resposta que damos ao que nos acontece.

Temos de aceitar a indiferen√ßa e a incompreens√£o dos outros. As d√ļvidas e as contradi√ß√Ķes do mundo s√£o um peso acrescido, que devemos carregar junto √†s nossas pr√≥prias dores, falhas e fraquezas.

Depois, h√° ainda os pesos que os outros n√£o podem, ou n√£o querem, levar…

Os males pesam, sempre. Sejam os meus, os do mundo ou os dos que amo… h√° que aceit√°-los primeiro, para lhes fazer frente depois.

√Č essencial aceitar a fraqueza das nossas for√ßas. A imperman√™ncia de tudo o que temos. A fragilidade do que somos.

Por vezes, a cruz é o caminho.

√Č na dor que o verdadeiro amor se manifesta.

Tenho de me negar a mim mesmo se quero amar o outro.

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A criança desprotegida que encontramos na rua não é motivo para revolta ou exasperação, e sim um apelo para que trabalhemos com mais amor pela edificação de um mundo melhor.

O Homem Perfeito

A virtude subdivide-se em quatro aspectos: refrear os desejos, dominar o medo, tomar as decis√Ķes adequadas, dar a cada um o que lhe √© devido. Concebemos assim as no√ß√Ķes de temperan√ßa, de coragem, de prud√™ncia e de justi√ßa, cada qual comportando os seus deveres espec√≠ficos. A partir de qu√™, ent√£o, concebemos n√≥s a virtude? O que no-la revela √© a ordem por ela pr√≥pria estabelecida, o decoro, a firmeza de princ√≠pios, a total harmonia de todos os seus actos, a grandeza que a eleva acima de todas as conting√™ncias. A partir daqui concebemos o ideal de uma vida feliz, fluindo segundo um curso inalter√°vel, com total dom√≠nio sobre si mesma. E como √© que este ideal aparece aos nossos olhos? Vou dizer-te.
O homem perfeito, possuidor da virtude, nunca se queixa da fortuna, nunca aceita os acontecimentos de mau humor, pelo contr√°rio, convicto de ser um cidad√£o do universo, um soldado pronto a tudo, aceita as dificuldades como uma miss√£o que lhes √© confiada. N√£o se revolta ante as desgra√ßas como se elas fossem um mal originado pelo azar, mas como uma tarefa de que ele √© encarregado. ¬ęSuceda o que suceder¬Ľ, ‚ÄĒ diz ele ‚ÄĒ ¬ęo caso √© comigo;

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L√° fora passar√£o civiliza√ß√Ķes, escachar√£o revoltas, turbilhonar√£o festas, correr√£o mansos quotidianos povos.. E n√≥s, √≥ meu amor irreal, teremos sempre o mesmo gesto in√ļtil, a mesma exist√™ncia falsa.

Justitia Mater

Nas florestas solenes h√° o culto
Da eterna, íntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva
D’um deus que luta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue medida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,

Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da história,
Os combates eternos da Justiça!

Nota Discordante

Porque razão sorri a Natureza à minha volta?

Reparem na discord√Ęncia…

√Č como um grito de revolta
que se solta
por a√≠ fora…

… e n√£o encontra obst√°culo para o eco…

Partida

Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas √°guas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
N√£o h√° muitos que a saibam reflectir.

A minh’alma nost√°lgica de al√©m,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a f√īr√ßa de sumir tamb√©m.

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que s√£o para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul √° busca da beleza.

√Č subir, √© subir √†lem dos c√©us
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados resar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

√Č partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.

√Č suscitar c√īres endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-un√ß√£o d’alma ampliada,

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