Textos sobre Conceção

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Textos de conceção escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem

Uma vida exterior simples e modesta s√≥ pode fazer bem, tanto ao corpo como ao esp√≠rito. N√£o creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filos√≥fico. Cada um age n√£o s√≥ sob press√£o exterior como tamb√©m de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: ¬ęO homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas n√£o pode querer o que quer¬Ľ, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgot√°vel de toler√Ęncia. Esse conhecimento suaviza ben√©ficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibit√≥rio e faz com que n√£o tomemos demasiado a s√©rio, para n√≥s e para os outros, uma concep√ß√£o de vida que justifica de modo especial a exist√™ncia do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade,

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O Tipo de Homem que Eu Sou

Agora é necessário que eu deva dizer que tipo de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer outro pormenor exterior particular acerca de mim. Do meu carácter alguma coisa deve ser dita.

Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Nada √© ou pode ser positivo para mim, todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, uma incerteza para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e mudan√ßa. Tudo √© mist√©rio e tudo √© significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidos¬Ľ simb√≥licos do Desconhecido. Consequentemente horror, mist√©rio, medo supra-inteligente.

Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo enquadramento da minha juventude, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isso eu sou das espécies internas de caráter, auto-centrado, mudo, não auto-suficiente mas auto-perdido. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de, na incapacidade que permeia tudo o que me é, fisicamente e mentalmente, por actos decisivos, por pensamentos definidos. Eu nunca tive uma resolução nascida de uma auto-determinação, nunca uma traição externa de uma vontade consciente. Nenhum dos meus escritos foi terminado;

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O Amor como Factor Civilizador

As provas da psican√°lise demonstram que quase toda rela√ß√£o emocional √≠ntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo ‚ÄĒ casamento, amizade, as rela√ß√Ķes entre pais e filhos ‚ÄĒ cont√©m um sedimento de sentimentos de avers√£o e hostilidade, o qual s√≥ escapa √† percep√ß√£o em consequ√™ncia da repress√£o. Isso acha-se menos disfar√ßado nas alterca√ß√Ķes comuns entre s√≥cios comerciais ou nos resmungos de um subordinado em rela√ß√£o ao seu superior. A mesma coisa acontece quando os homens se re√ļnem em unidades maiores. Cada vez que duas fam√≠lias se vinculam por matrim√≥nio, cada uma delas se julga superior ou de melhor nascimento do que a outra. De duas cidades vizinhas, cada uma √© a mais ciumenta rival da outra; cada pequeno cant√£o encara os outros com desprezo. Ra√ßas estreitamente aparentadas mant√™m-se a certa dist√Ęncia uma da outra: o alem√£o do sul n√£o pode suportar o alem√£o setentrional, o ingl√™s lan√ßa todo tipo de cal√ļnias sobre o escoc√™s, o espanhol despreza o portugu√™s. N√£o ficamos mais espantados que diferen√ßas maiores conduzam a uma repugn√Ęncia quase insuper√°vel, tal como a que o povo gaul√™s sente pelo alem√£o, o ariano pelo semita.
Quando essa hostilidade se dirige contra pessoas que de outra maneira s√£o amadas,

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O Meu Car√°cter

Cumpre-me agora dizer que esp√©cie de homem sou. N√£o importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. √Č acerca do meu car√°cter que se imp√Ķe dizer algo.
Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Para mim, nada √© nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e muta√ß√£o. Tudo √© mist√©rio, e tudo √© prenhe de significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidas¬Ľ, s√≠mbolos do Desconhecido. O resultado √© horror, mist√©rio, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tend√™ncias naturais, pelas circunst√Ęncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influ√™ncia dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tend√™ncias) – por tudo isto o meu car√°cter √© do g√©nero interior, autoc√™ntrico, mudo, n√£o auto-suficiente mas perdido em si pr√≥prio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu car√°cter consiste no √≥dio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, f√≠sica e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decis√£o nascida do autodom√≠nio, jamais tra√≠ externamente uma vontade consciente. Os meus escritos,

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A Boa Vontade

De todas as coisas que podemos conceber neste mundo ou mesmo, de uma maneira geral, fora dele, n√£o h√° nenhuma que possa ser considerada como boa sem restri√ß√£o, salvo uma boa vontade. O entendimento, o esp√≠rito, o ju√≠zo e os outros talentos do esp√≠rito, seja qual for o nome que lhes dermos, a coragem, a decis√£o, a perseveran√ßa nos prop√≥sitos, como qualidades do temperamento, s√£o, indubit√°velmente, sob muitos aspectos, coisas boas e desej√°veis; contudo, tamb√©m podem chegar a ser extrordin√°riamente m√°s e daninhas se a vontade que h√°-de usar destes bens naturais, e cuja constitui√ß√£o se chama por isso car√°cter, n√£o √© uma boa vontade. O mesmo se pode dizer dos dons da fortuna. O poder, a riqueza, a considera√ß√£o, a pr√≥pria sa√ļde e tudo o que constitui o bem-estar e contentamento com a pr√≥pria sorte, numa palavra, tudo o que se denomina felicidade, geram uma confian√ßa que muitas vezes se torna arrog√Ęncia, se n√£o existir uma boa vontade que modere a influ√™ncia que a felicidade pode exercer sobre a sensibilidade e que corrija o princ√≠pio da nossa actividade, tornando-o √ļtil ao bem geral; acrescentemos que num espectador imparcial e dotado de raz√£o, testemunha da felicidade ininterrupta de uma pessoa que n√£o ostente o menor tra√ßo de uma vontade pura e boa,

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Os Poetas Tornam a Vida mais Leve

Os poetas, na medida em que tamb√©m querem tornar mais leve a vida das pessoas, ou desviam o olhar do trabalhoso presente ou ajudam o presente a adquirir novas cores, gra√ßas a uma luz vinda do passado que fazem irradiar sobre ele. Para poderem faz√™-lo, t√™m eles pr√≥prios de ser, em muitos aspectos, seres voltados para tr√°s: de maneira que se os pode utilizar como pontes para chegar a tempos e concep√ß√Ķes muito distantes, a religi√Ķes e civiliza√ß√Ķes em vias de extin√ß√£o ou j√° extintas. (…) √Č certo que h√° algumas coisas desfavor√°veis a dizer quanto aos meios de que eles se servem para aligeirar a vida: apenas sossegam e curam provisoriamente, s√≥ de momento; at√© impedem as pessoas de trabalhar na realidade por uma melhoria da sua situa√ß√£o, precisamente enquanto suprimem e descarregam, por meio de paliativos, a paix√£o dos insatisfeitos, que incitam √† ac√ß√£o.

Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

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O Verdadeiro Rosto da História

O verdadeiro rosto da hist√≥ria afasta-se veloz. S√≥ podemos reter o passado como uma imagem que no instante em que se deixa reconhecer lan√ßa um clar√£o que n√£o voltar√° a ver-se. ¬ęA verdade n√£o nos escapar√°¬Ľ – esta palavra de Gottfried Keller caracteriza com exactid√£o, na concep√ß√£o da hist√≥ria que t√™m os historicistas, o ponto em que o materialismo hist√≥rico realiza o seu avan√ßo atrav√©s dessa imagem. Irrecuper√°vel √©, com efeito, toda a imagem do passado que corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela n√£o se reconheceu. (A feliz not√≠cia trazida pelo ofegante histori√≥grafo do passado sai de uma boca que, talvez no pr√≥prio instante em que se abre, fala j√° no vazio.)

O Professor como Mestre

N√£o me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma √© burocr√°tica e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profiss√£o; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa intelig√™ncia e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das aten√ß√Ķes das pessoas mais s√©rias; creio mesmo que tal distin√ß√£o foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, √© sempre poss√≠vel a compara√ß√£o com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de m√©rito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre n√£o √© de modo algum um emprego e que a sua actividade se n√£o pode aferir pelos m√©todos correntes; ganhar a vida √© no professor um acr√©scimo e n√£o o alvo; e o que importa, no seu ju√≠zo final, n√£o √© a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente h√°-de pesar na balan√ßa √© a pedra que lan√ßou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama;

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A (Má-)Emoção Controlada Pela Razão

H√° a ideia de que quando se concede √† raz√£o inteira liberdade ela destr√≥i todas as emo√ß√Ķes profundas. Esta opini√£o parece-me devida a uma concep√ß√£o inteiramente errada da fun√ß√£o da raz√£o na vida humana. N√£o √© objectivo da raz√£o gerar emo√ß√Ķes, embora possa ser parte da sua fun√ß√£o descobrir os meios de impedir que tais emo√ß√Ķes sejam um obst√°culo ao bem-estar. Descobrir os meios de dminuir o √≥dio e a inveja √© sem d√ļvida parte da fun√ß√£o da psicologia racional. Mas √© um erro supor que diminuindo essas paix√Ķes, diminuiremos ao mesmo tempo a intensidade das paix√Ķes que a raz√£o n√£o condena.
No amor apaixonado, na afei√ß√£o dos pais, na amizade, na benevol√™ncia, na devo√ß√£o √†s ci√™ncias ou √†s artes, nada h√° que a raz√£o deseje diminuir. O homem racional, quando sente essas emo√ß√Ķes, ficar√° contente por as sentir e nada deve fazer para diminuir a sua intensidade, pois todas elas fazem parte da verdadeira vida, isto √©, da vida cujo objectivo √© a felicidade, a pr√≥pria e a dos outros. Nada h√° de irracional nas paix√Ķes como paix√Ķes e muitas pessoas irracionais sentem s√≥mente as paix√Ķes mais triviais. Ningu√©m deve recear que ao optar pela raz√£o torne triste a vida.

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Do Livre Arbítrio

A ideia de livre arb√≠trio, na minha opini√£o, tem o seu princ√≠pio na aplica√ß√£o ao mundo moral da ideia primitiva e natural de liberdade f√≠sica. Esta aplica√ß√£o, esta analogia √© inconsciente; e √© tamb√©m falsa. √Č, repito, um daqueles erros inconscientes que n√≥s cometemos; um daqueles falsos racioc√≠nios nos quais tantas vezes e t√£o naturalmente ca√≠mos. Schopenhauer mostrou que a primitiva no√ß√£o de liberdade √© a “aus√™ncia de obst√°culos”, uma no√ß√£o puramente f√≠sica. E na nossa concep√ß√£o humana de liberdade a no√ß√£o persiste. Ningu√©m toma um idiota, ou louco por respons√°vel. Porqu√™? Porque ele concebe uma coisa no c√©rebro como um obst√°culo a um verdadeiro ju√≠zo.
A ideia de liberdade é uma ideia puramente metafísica.
A ideia prim√°ria √© a ideia de responsabilidade que √© somente a aplica√ß√£o da ideia de causa, pela refer√™ncia de um efeito √† sua Causa. “Uma pessoa bate-me; eu bato √†quela em defesa.” A primeira atingiu a segunda e matou-a. Eu vi tudo. Essa pessoa √© a Causa da morte da outra.” Tudo isto √© inteiramente verdade.
Assim se vê que a ideia de livre arbítrio não é de modo algum primitiva; essa responsabilidade, fundada numa legítima mas ignorante aplicação do princípio de Causalidade é a ideia realmente primitiva.

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A Diferença entre Ficção e Crença

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o stock primitivo de ideias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas ideias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca. Ela pode inventar uma série de eventos com toda a aparência de realidade, pode atribuir-lhes um tempo e um lugar particulares, concebê-los como existentes e des­crevê-los com todos os pormenores que correspondem a um facto histórico, no qual ela acredita com a máxima certeza. Em que consiste, pois, a diferença entre tal ficção e a crença?
Ela não se localiza sim­plesmente numa ideia particular anexada a uma concepção que obtém o nosso assentimento, e que não se encontra em nenhuma ficção conhecida. Pois, como o espírito tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia voluntariamente anexar esta ideia particular a uma ficção e, por conseguinte, seria capaz de acreditar no que lhe agradasse, embora se opondo a tudo que encontramos na experiência diária. Po­demos, quando pensamos, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo, mas não está em nosso poder acreditar que semelhante animal tenha alguma vez existido.

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Toda a Acção é Egoísta

N√£o pode haver ac√ß√Ķes que n√£o sejam ego√≠stas. Palavras como ¬ęinstinto altru√≠sta¬Ľ soam aos meus ouvidos como machadadas. Bem gostaria eu que algu√©m tentasse demonstrar a possibilidade de actos desses! O povo e quem se lhe assemelha √© que acredita que eles existem. Tamb√©m h√° quem creia que o amor maternal e o amor carnal s√£o sentimentos altru√≠stas!
√Č um erro hist√≥rico supor que os povos sempre equipararam o sentido de ego√≠smo e de altru√≠smo ao de bem e de mal. Bem mais antiga √© a concep√ß√£o de l√≠cito e il√≠cito, respectivamente como bem e mal, em conformidade com o cumprimento ou falta de cumprimento dos costumes.

O Liberalismo

O regime liberal é aquele em que os direitos da pessoa são apenas considerados inalienáveis aos interesses da comunidade. Por isso, nele se procura assegurar nas leis e na prática o respeito da pessoa mediante o efetivo exercício daqueles direitos, mas não a destruição dela pela anarquia totalitária ou libertária.

(…) Se se entende por liberal todo aquele que acha indispens√°vel que qualquer solu√ß√£o pol√≠tica respeite as liberdades e os direitos fundamentais da pessoa humana, sou efetivamente liberal. Se, por outro lado, se limita a conce√ß√£o de liberalismo ao campo exclusivamente econ√≥mico e se tem como liberal aquele que preconiza a absten√ß√£o do poder pol√≠tico em rela√ß√£o ao campo econ√≥mico e ao campo social, nesse sentido n√£o sou liberal.

O Dilema do Conhecimento

Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral.
(…) O que precisamos fazer √© arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emo√ß√Ķes, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas mon√°sticas. Podemos parodiar a B√≠blia e dizer: “Que o homem n√£o separe o que a natureza juntou”; n√£o permitamos que a arbitr√°ria divis√£o acad√©mica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo.
Mas aqui deparamo-nos com um problema muito grave: qualquer forma de conhecimento superior exige especializa√ß√£o. Precisamos de nos especializar para entrar mais profundamente em certos aspectos separados da realidade. Mas se a especializa√ß√£o √© absolutamente necess√°ria, pode ser absolutamente fatal, se levada longe demais. Por isso, precisamos de descobrir algum meio de tirar o maior proveito de ambos os mundos –

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A Cobardia como Pilar da Civilização

Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua concep√ß√£o materialista da Hist√≥ria, que eles subestimam certas qualidades espirituais do homem que n√£o dependem de quanto ele ganhe ou deixe de ganhar. O argumento √© o de que essas qualidades colorem as aspira√ß√Ķes e actividades do homem civilizado tanto quanto s√£o coloridas pela sua condi√ß√£o material, tornando assim imposs√≠vel simplesmente
reduzir o homem a uma m√°quina econ√≥mica. Como exemplos, os antimarxistas citam o patriotismo, a piedade, o senso est√©tico e a vontade de conhecer Deus. Infelizmente, os exemplos s√£o mal escolhidos. Milh√Ķes de homens n√£o ligam para o patriotismo, a piedade ou o senso est√©tico, n√£o t√™m o menor interesse activo em conhecer Deus. Por que √© que os antimarxistas n√£o citam uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma. Refiro-me √† cobardia. De uma forma ou de outra, ela √© vis√≠vel em todo o ser humano; serve tamb√©m para separar o homem de todos os outros animais superiores. A cobardia, acredito, est√° na base de todo o sistema de castas e na forma√ß√£o de todas as sociedades organizadas, inclusive as mais democr√°ticas. Para escapar de ir √† guerra ele pr√≥prio, o campon√™s deva de m√£o beijada certos privil√©gios aos guerreiros ‚Äď e destes privil√©gios brotou toda a estrutura da civiliza√ß√£o.

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Uma Nação Sem Ideal Desaparece Rapidamente da História

Qualquer que seja a ra√ßa ou o tempo considerado, o objectivo constante da atividade humana foi sempre a pesquisa da felicidade, a qual consiste, em √ļltima an√°lise, ainda o repito, em procurar o prazer e evitar a dor. Sobre essa concep√ß√£o fundamental os homens estiveram constantemente de acordo; as suas diverg√™ncias aplicam-se somente √† id√©ia que se concebe da felicidade e aos meios de a conquistar.
As suas formas s√£o diversas, mas o termo que se tem em mira √© id√™ntico. Sonhos de amor, de riqueza, de ambi√ß√£o ou de f√© s√£o os possantes factores de ilus√Ķes que a natureza emprega para conduzir-nos aos seus fins. Realiza√ß√£o de um desejo presente ou simples esperan√ßa, a felicidade √© sempre um fen√≥meno subjectivo. Desde que os contornos do sonho se implantam um pouco no esp√≠rito, com ardor n√≥s tentamos obt√™-lo.
Mudar a concepção da felicidade de um indivíduo ou de um povo, isto é, o seu ideal, é mudar, ao mesmo tempo, a sua concepção da vida e, por conseguinte, o seu destino. A história não é mais do que a narração dos esforços empregues pelo homem para edificar um ideal e destruí-lo em seguida, quando, tendo-o atingido, descobre a sua fragilidade.

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O Homem é um Animal Afectivo ou Sentimental, não Racional

Na maior parte das hist√≥rias da filosofia que conhe√ßo, os sistemas s√£o-nos apresentados, como tendo origem uns nos outros, e os seus autores, os fil√≥sofos, aparecem apenas como meros pretextos. A biografia √≠ntima dos fil√≥sofos, e dos homens que filosofaram, ocupa um lugar secund√°rio. E, sem d√ļvida, √© ela, essa biografia √≠ntima a que mais coisas nos explica.
Cumpre-nos dizer, antes de mais, que a filosofia se inclina mais para a poesia do que para a ciência. Quantos sistemas filosóficos se forjaram, como suprema harmonização dos resultados finais das ciências particulares, num período qualquer, tendo tido muito menos consistência e menos vida do que aqueles outros que representavam o anseio integral do espírito do seu autor.
(…) A filosofia corresponde √† necessidade de formarmos uma concep√ß√£o unit√°ria e total do mundo e da vida e, como consequ√™ncia desse conceito, um sentimento que gere uma atitude √≠ntima, e at√© uma ac√ß√£o. Mas resulta que esse sentimento, em vez de ser consequ√™ncia daquele conceito, √© a sua causa. A nossa filosofia, isto √©, a nossa maneira de compreender ou de n√£o compreender o mundo e a vida, brota do nosso sentimento respeitante √† pr√≥pria vida. E esta, como tudo o que √© afectivo,

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A Insegurança do Escritor

√Č certo que tudo o que concebi antecipadamente, mesmo quando estava com boa disposi√ß√£o, quer com todo o pormenor, quer casualmente, mas em palavras espec√≠ficas, aparece seco, errado, inflex√≠vel, embara√ßado para todos os que me rodeiam, t√≠mido, mas acima de tudo incompleto, quando tento escrever tudo isso √† minha secret√°ria, embora eu n√£o tenha esquecido nada da concep√ß√£o original. Isto est√° naturalmente relacionado em grande parte com o facto de eu conceber uma coisa boa longe do papel durante apenas um momento de exalta√ß√£o mais temido do que desejado, embora eu muito o deseje; mas ent√£o a plenitude √© tal que eu tenho de ceder. √Äs cegas e arbitrariamente agarro peda√ßos da corrente, de modo que, quando escrevo calmamente, a minha aquisi√ß√£o n√£o √© nada comparada com a plenitude em que viveu, √© incapaz de restaurar essa plenitude, e assim √© m√° e perturbadora, por ser uma in√ļtil tenta√ß√£o.

O Homem Cruel

Quando o rico ti¬≠ra um pertence ao pobre (por exemplo, um pr√≠ncipe que tira a amante ao plebeu), ent√£o gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta¬≠mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele n√£o sente de modo algum t√£o profunda¬≠mente o valor de um √ļnico pertence, porque est√° ha¬≠bituado a ter muitos: portanto, n√£o se pode trans¬≠por para o esp√≠rito do pobre e n√£o comete tal uma injusti√ßa t√£o grande como este julga. Ambos t√™m um do outro uma concep√ß√£o errada. A injusti√ßa do poderoso, a que mais indigna na Hist√≥ria, n√£o √© as¬≠sim t√£o grande como parece. O mero sentimento heredit√°rio de ser um ser superior, com direitos su¬≠periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consci√™ncia tranquila: at√© todos n√≥s, se a dist√Ęncia entre n√≥s e um outro ente for muito grande, j√° n√£o sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso,

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