Cita√ß√Ķes sobre B√≠blia

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A Bíblia nos diz para amarmos nossos vizinhos, assim como nos pede para amar nossos inimigos; provavelmente porque se tratam das mesmas pessoas.

A palavra deus é para mim nada mais do que a expressão e produto da fraqueza humana, a bíblia uma coleção de honoráveis, mas ainda assim lendas primitivas que não são nada mais do que extremamente infantis. Nenhuma interpretação não importa o quão astuta pode (para mim) mudar isto.

A Bíblia por Goethe

Discute-se muito e h√°-de continuar a discutir-se em torno das vantagens e inconvenientes da divulga√ß√£o da B√≠blia. Para mim o assunto √© claro: ser√° perniciosa, como sempre o foi, se for usada de modo dogm√°tico e fantasista; e ser√° √ļtil, como sempre o foi, se for encarada de modo did√°tico e sens√≠vel.
√Č minha convic√ß√£o que a B√≠blia se torna tanto mais bela quanto mais a entendemos, ou seja, quanto mais se percebe e simultaneamente se intui cada uma das palavras que vamos apreendendo como coisa geral e que aplicamos ao nosso caso como coisa particular teve um dia, em certa situa√ß√£o, em determinadas circunst√Ęncias de tempo e de lugar, uma aplica√ß√£o individual pr√≥pria, espec√≠fica, imediata.

Amor e Justiça

Porque √© que se sobrestima o amor em detrimento da justi√ßa e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior √†quela? Pois n√£o √© ele visivelmente mais est√ļpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agrad√°vel para todos. Ele √© est√ļpido e possui uma rica cornuc√≥pia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta n√£o os mere√ßa e at√© nem sequer lhe agrade√ßa por isso. √Č imparcial como a chuva, a qual, segundo a B√≠blia e a experi√™ncia, n√£o s√≥ encharca o injusto at√© aos ossos, mas tamb√©m, em determinadas circunst√Ęncias, o justo.

O Amor na Lama

– Esteban, o homem n√£o poderia fazer grandes obras sem trabalhos pequenos; na maqueta do carpinteiro est√° todo o edif√≠cio do arquiteto, n√£o h√° profiss√Ķes grandes e pequenas: alegro-me que tenhas decidido ficar connosco na carpintaria, mas conv√©m que te lembres disso. N√£o te esque√ßas de que Deus tamb√©m se senta numa cadeira e come a uma mesa e dorme numa cama. Como qualquer um. Pode prescindir dos ret√°bulos, das est√°tuas e dos livros que lhe dedicam, incluindo a B√≠blia, mas n√£o da cadeira, da mesa e da cama. ‚ÄĒ O meu tio esfor√ßava-se muito. Queria que eu me sentisse bem na profiss√£o. Que come√ßasse a gostar dela. Acreditava que eu vivia como um fracasso a decis√£o de ter abandonado a Escola de Belas–Artes. Intu√≠a certamente que eu precisava de desenvolver a minha autoestima. Mas tudo isso me parecia mera ret√≥rica ‚ÄĒ e era-o ‚ÄĒ, a verdade √© que por essa altura j√° tinha come√ßado a sair com Leonor e era ela quem eu amava, aprendia a gostar de mim atrav√©s dela. Descobria o meu corpo em cada palmo do corpo dela, e o meu corpo ganhava valor porque lhe pertencia, era o seu complemento: acreditava que partilh√°vamos dois corpos que jamais poderiam separar-se e viver cada um por si.

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O Problema da Especialização

O dom√≠nio dos factos explic√°veis pela ci√™ncia alargou enormemente, e o conhecimento te√≥rico em todos os campos da ci√™ncia tem sido aprofundado, para al√©m do que podia esperar-se. A capacidade de compreens√£o humana, por√©m, √© e ser√° sempre muito limitada. Assim n√£o podia deixar de acontecer que a actividade do investigador individual tivesse que restringir-se a um sector, cada vez mais limitado, do conhecimento cient√≠fico geral. Mas o mais grave √© que esta especializa√ß√£o faz que a compreens√£o geral da ci√™ncia como um todo ‚ÄĒ sem a qual o verdadeiro investigador cristaliza for√ßosamente ‚ÄĒ tenha de marcar passo com a evolu√ß√£o, o que se torna cada vez mais dif√≠cil. Cria-se, assim, uma situa√ß√£o id√™ntica √†quela que, na B√≠blia, √© simbolicamente representada pela Hist√≥ria da torre de Babel. Todo o investigador honesto tem a dolorosa consci√™ncia dessa limita√ß√£o involunt√°ria a um c√≠rculo de compreens√£o cada vez mais apertado, que amea√ßa roubar as grandes perspectivas ao investigador e o reduz a simples obreiro.

O Progresso Aumenta a Vida e a Morte

N√£o desconhe√ßo que a velhice constitui, em grande parte, um preconceito aritm√©tico, e que o nosso maior erro consiste em contar os anos que vivemos. Com efeito, tudo nos leva a supor que a Natureza dotou o homem (n√£o falo j√° nas longevidades da B√≠blia) de vida m√©dia mais longa do que aquela que as estat√≠sticas demogr√°ficas acusam, e que, se morremos antes do termo normal da exist√™ncia, √© porque sucumbimos, n√£o a ¬ęmorte natural¬Ľ (a ¬ęmorte fisiol√≥gica¬Ľ, de Metchnickoff), mas a ¬ęmorte violenta¬Ľ, que √© a morte por ac√ß√£o destrutiva dos germes patog√©nicos. Como quer que seja, por√©m, parece-me incontest√°vel que o homem envelhece antes do tempo e morre, em geral, quando ainda n√£o chegou a meio do caminho da vida.

Ser√° o engenho humano capaz de op√īr uma barreira √† marcha inexor√°vel da decrepitude? Talvez. O nosso organismo √© uma m√°quina; gasta-se, como todas as m√°quinas; e, por milagre da Natureza, ainda √© aquela que, funcionando permanentemente, consegue durar mais tempo. Contentemo-nos com a ideia de que o homem de hoje vive mais do que vivia na Antiguidade cl√°ssica e na √©poca medieval, merc√™ do progresso das t√©cnicas, do conforto moderno da exist√™ncia, da observa√ß√£o dos preceitos que a higiene,

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Este Livro

Este livro é de mágoas.Desgraçados os
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo…e compreend√™-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
B√≠blia de tristes…√ď Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de M√°goas…Dores…Ansiedades!
Livro de Sombras…N√©voas e Saudades!
Vai pelo mundo…(Trouxe-o no meu seio…)

Irm√£os na Dor, os olhos rasos de √°gua,
Chorai comigo a minha imensa m√°goa,
Lendo o meu livro s√≥ de m√°goas cheio!…

A Anto!

Poeta da saudade, √≥ meu poeta qu¬īrido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o Só pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,

Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bíblia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!

√ď Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu cora√ß√£o…

Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe
Beijando-te j√° frio no fundo do caix√£o!

A B√≠blia tem sido a carta magna dos pobres e oprimidos. A ra√ßa humana n√£o est√° em condi√ß√Ķes de dispens√°-la.

Ali n√£o Havia Eletricidade

Ali n√£o havia eletricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava √† m√£o para ler ‚ÄĒ
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.
E reli a “Primeira Ep√≠stola aos Cor√≠ntios”.
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contr√°rio,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A “Primeira Ep√≠stola aos Cor√≠ntios” …
Relia-a √† luz de uma vela subitamente antiq√ľ√≠ssima,
E um grande mar de emo√ß√£o ouvia-se dentro de mim…
Sou nada…
Sou uma fic√ß√£o…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
“Se eu n√£o tivesse a caridade.”
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma √© livre…
“Se eu n√£o tivesse a caridade…”
Meu Deus, e eu que n√£o tenho a caridade

Há mais indícios seguros de autenticidade na Bíblia do que em qualquer história profana.

√Č minha f√© na B√≠blia que me serviu de guia em minha vida moral e liter√°ria. Quanto mais a civiliza√ß√£o avance, mais ser√° empregada a B√≠blia.

Que o homem progrida quanto quiser, que todos os ramos do conhecimento humano se desenvolvam ao mais alto grau, coisa alguma substituirá a Bíblia, base de toda a cultura e de toda a educação.

O Dilema do Conhecimento

Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral.
(…) O que precisamos fazer √© arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emo√ß√Ķes, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas mon√°sticas. Podemos parodiar a B√≠blia e dizer: “Que o homem n√£o separe o que a natureza juntou”; n√£o permitamos que a arbitr√°ria divis√£o acad√©mica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo.
Mas aqui deparamo-nos com um problema muito grave: qualquer forma de conhecimento superior exige especializa√ß√£o. Precisamos de nos especializar para entrar mais profundamente em certos aspectos separados da realidade. Mas se a especializa√ß√£o √© absolutamente necess√°ria, pode ser absolutamente fatal, se levada longe demais. Por isso, precisamos de descobrir algum meio de tirar o maior proveito de ambos os mundos –

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Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida