Passagens sobre Contos

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Frases sobre contos, poemas sobre contos e outras passagens sobre contos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

No conto (como em qualquer outro g√©nero liter√°rio) o mais importante n√£o √© o seu conte√ļdo liter√°rio mas a forma como ele nos comove e nos ensina a entender n√£o atrav√©s do racioc√≠nio mas do sentimento (ser√° que existem estas categorias, assim separadas?).

Aprender a Ler

Tive muita dificuldade em aprender a ler. N√£o me parecia l√≥gico que a letra ¬ęm¬Ľ se chamasse ¬ę√©me¬Ľ e, no entanto, com a vogal seguinte n√£o se dissesse ¬ę√©me¬Ľ e sim ¬ęma¬Ľ. Era-me imposs√≠vel ler assim. Por fim, quando cheguei ao Montessori, a professora n√£o me ensinou os nomes mas sim os sons das consoantes. Assim pude ler o primeiro livro que encontrei numa arca poeirenta da arrecada√ß√£o da casa. Estava descosido e incompleto, mas absorveu-me de uma forma t√£o intensa que o namorado da Sara, ao passar, deixou cair uma premoni√ß√£o aterradora: ¬ęCaramba!, este menino vai ser escritor¬Ľ.

Dito por ele, que vivia de escrever, causou-me uma grande impress√£o. Passaram v√°rios anos antes de saber que o livro era ¬ęAs Mil e Uma Noites¬Ľ. O conto de que mais gostei – um dos mais curtos e o mais simples que li ‚ÄĒ continuou a parecer-me o melhor para o resto da minha vida, embora agora n√£o esteja seguro de que fosse l√° que o li nem ningu√©m me tenha podido esclarecer. O conto √© este: um pescador prometeu a uma vizinha oferecer-lhe o primeiro peixe que pescasse se ela lhe emprestasse um chumbo para a sua rede e,

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A Função do Escritor

Que o mundo ¬ęest√° infestado com a esc√≥ria do g√©nero humano¬Ľ √© perfeitamente verdade. A natureza humana √© imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura √© separar o trigo do joio √© rejeitar a pr√≥pria literatura. A literatura art√≠stica √© assim chamada porque descreve a vida como realmente √©. O seu objectivo √© a verdade – incondicional e honestamente. O escritor n√£o √© um confeiteiro, um negociante de cosm√©ticos, algu√©m que entret√©m; √© um homem constrangido pela realiza√ß√£o do seu dever e a sua consci√™ncia. Para um qu√≠mico, nada na terra √© puro. Um escritor tem de ser t√£o objectivo como um qu√≠mico.
Parece-me que o escritor n√£o deveria tentar resolver quest√Ķes como a exist√™ncia de Deus, pessimismo, etc. A sua fun√ß√£o √© descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunst√Ęncias. O artista n√£o deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objectivo,

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Faz parte de minha profissão estar mesmo sempre sozinha, sem intérpretes e sem colaboradores. Escute, todas as vezes em que eu acabei de escrever um livro ou um conto, pensei com desespero e com toda a certeza de que nunca mais escreveria nada.

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a ac√ß√£o. A ac√ß√£o mete-me medo. De dia podo as minhas √°rvores, √† noite sonho. Sinto Deus – toco-o. Deus √© muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me – n√£o o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta m√£o que me prende e sustenta e que tanta for√ßa tem…
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Contar hist√≥rias √© uma das mais belas ocupa√ß√Ķes humanas: e a Gr√©cia assim o compreendeu, divinizando Homero que n√£o era mais que um sublime contador de contos da carochinha. Todas as outras ocupa√ß√Ķes humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; s√≥ essa de contar hist√≥rias se dedica amoravelmente a entret√™-lo, o que tantas vezes equivale a consol√°-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida!

Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

Conto de Fadas

Eu trago-te nas m√£os o esquecimento
Das horas m√°s que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos s√£o ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crep√ļsculos da tarde,
O sol que √© d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: ‚ÄúEra uma vez…‚ÄĚ

Um livro de contos √© um livro ligeiro de emo√ß√Ķes curtas: deve portanto ser leve, port√°til, f√°cil de se levar na algibeira para debaixo de uma √°rvore, e confort√°vel para se ter √† cabeceira da cama. N√£o pode ter o formato dum relat√≥rio, que, sendo destinado em definitivo a embrulhar objectos, deve ter de antem√£o o tamanho c√≥modo do papel de embrulho; nem pode ter o volume dum calhama√ßo de erudi√ß√£o hist√≥rica, impresso com o fim de ornamentar uma biblioteca.

Política feroz, que sempre armada
De b√°rbaros pretextos,
√Ä morte horrenda em l√ļgubre teatro
Dás vítimas sem conto,
Apoucas e destróis a Humanidade,
Afectando mantê-la.

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar √© preciso; viver n√£o √© preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
N√£o conto gozar a minha vida; nem em goz√°-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

√Č a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Ra√ßa.

Tenho medo que os meus filhos nunca cheguem a entender aquilo que lhes conto quando ficamos em silêncio, quando o tempo passa e estamos juntos, no mesmo lugar, eu a conduzir em viagens longas com horizonte e eles, ao meu lado, a olharem pela janela, ou quando é fim da tarde, também com horizonte, em silêncio.

Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

“Era uma vez uma flor.
Nasceu √† beira de um Poeta…”

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).

A um Nariz Grande

Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a m√£o me d√°s,
Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti est√°
Porque monte t√£o alto n√£o no h√°.

Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu h√£o-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
√Čs t√£o grande, nariz, que h√° opini√Ķes,
E prova-o com raz√Ķes
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.

Cuido que sem narizes, por mostrar
Seu poder em acabar,
Sua grandeza,
Deixou gente sem conto a natureza,
Que assoas, Gabriel, quando te assoas,
Os narizes de mais de mil pessoas.

Aos mais narizes d√°s o ser que tem,

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O Vício do Exagero

Hoje, no caf√©, aqui-del-rei que eu exagero, aqui-del-rei que conto uma anedota e a anedota sai da minha boca transfigurada. Aqui-del-rei que descrevo um indiv√≠duo e ponho bigodes de pol√≠cia onde havia somente uma discreta penugem. √Č certo, exagero. Come√ßo a pintar um bot√£o, e √© capaz de me sair o cosmos.

Eu não conheço piadas, eu apenas presto atenção no Governo e conto os fatos que vi

Dor Suprema

Um amigo me disse: ¬ęO que tu crias
√Č sonho e pretens√£o, tudo fingido;
O pranto com que a mente s√£ desvias
√Č decerto for√ßado e pretendido!

Em toda a canção e conto que fazes
Porquê palavra dura, amargurada?
Por que ao vero e bom n√£o te comprazes
E, jovem, a alegria √© desdenhada?¬Ľ

Porque, amigo, embora seja a loucura
Ora doce, ora dor inominada,
Nunca a dor humana a dor atura

Da mente louca, da loucura ciente;
Porque a ciência ganha é completada
Com o saber dum mal sempre iminente.