Passagens sobre Escadas

80 resultados
Frases sobre escadas, poemas sobre escadas e outras passagens sobre escadas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Anos Quarenta

Amo-te mais quando olho quando
para a torneira do gás quando estou nu à noite quando
e come√ßo a mexer em p√Ęnico os ossos da m√£o direita
h√° domingos h√° a inf√Ęncia em que se parou numas escadas altas
ouvia-se a guerra ia-se para a cama por causa do ciclone
e quando o vento vem e decepa e quando
as árvores da rua é a mãe que recorta
uns papéis
brancos para colar nos vidros
ou quando (da capo) esse homem
nu à noite quando olha

e vejo vê-se
o indicador direito
manchado de nicotina

depois uma vez desfila
a vitória! surpreendo-os na sala
que me d√£o dinheiro e corro a comprar barros
na feira e quando quando coisas assim
partia logo e isso era a tristeza

volto a pensar: que queria eu na inf√Ęncia
o sol? outro nome sobre o meu t√£o fr√°gil?

amo-te mais à noite portanto
quando dobro as calças e começo
quando esse gesto √ļtil quando
bate numas pernas e vê-se
de trinta e cinco anos

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e n√£o pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na m√£o grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
n√£o d√° por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
n√£o disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
j√° remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;

Continue lendo…

Êxtase

Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa car√≠cia l√Ęnguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de p√°ssaros nos olhos.

A Subfelicidade

O que mais d√≥i n√£o √© ‚Äď desengana-te ‚Äď a infelicidade. A infelicidade d√≥i. Magoa. Martiriza. √Č intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade n√£o √© o que mais d√≥i. A infelicidade √© infeliz ‚Äď mas n√£o √© o que mais d√≥i.

O que mais d√≥i √© a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que n√£o se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade n√£o magoa ‚Äď vai magoando; a subfelicidade n√£o martiriza ‚Äď vai martirizando. N√£o √© intensa ‚Äď mas √© imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar ‚Äď mas em sil√™ncio, em surdina, em anonimato. Como se n√£o fosse. Mas √©: a subfelicidade √©. A subfelicidade faz-te ficar ref√©m do que tens ‚Äď mas nem assim te impede de te sentires apeado do que n√£o tens e gostarias de ter. Do que est√° ali, sempre ali, sempre √† m√£o de semear ‚Äď e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade √© o piso -1 da felicidade. E n√£o h√° elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda da√≠.

Continue lendo…

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

Continue lendo…

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas s√£o, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a f√ļria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que s√£o as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como v√°rias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais an√°logo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele h√° s√≥ Ele, e Tudo para Ele √© pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Continue lendo…

Não se larga um hábito arremessando-o pela janela, é preciso fazê-lo descer a escada degrau a degrau.

Um degrau de escada que não foi desgastado a fundo é, do seu próprio ponto de vista, apenas algo de madeira montado no ermo.

A Carnal Tentação Desenfreada

A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede
Subisse de uma puta a infame escada.

Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
J√° de antigos morr√Ķes afogueada.

Saiu da alcova a desgrenhada f√ļria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, s√≥rdida pen√ļria:

Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras √† lux√ļria
Jurei no altar de Vénus castidade.

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos m√°gicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua m√£o me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que n√£o moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Lírio Lutuoso

Essência das essências delicadas,
Meu perfumoso e tenebroso lírio,
Oh! dá-me a glória de celeste Empíreo
Da tu’alma nas sombras encantadas.

Subindo lento escadas por escadas,
Nas espirais nervosas do Martírio,
Das √ānsias, da Vertigem, do Del√≠rio,
Vou em busca de m√°gicas estradas.

Acompanha-me sempre o teu perfume,
Lírio da Dor que o Mal e o Bem resumem,
Estrela negra, tenebroso fruto.

Oh! dá-me a glória do teu ser nevoento
para que eu possa haurir o sentimento
Das l√°grimas acerbas do teu luto!.

Vita Nuova

De onde e veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser… N√£o era nada,
Sen√£o na pele a sombra de um carinho.

Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada…
Batia a minha cor multiplicada,
– Era o sangue de Deus mudado em vinho!

Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou √† dist√Ęncia o s√ļbito alabastro.

E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.

A Casa Branca Nau Preta

Estou reclinado na poltrona, √© tarde, o Ver√£o apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu c√©rebro…
N√£o existe manh√£ para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que algu√©m teve por mim…
H√° uma interrup√ß√£o lateral na minha consci√™ncia…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem aten√ß√£o as minhas sensa√ß√Ķes sem nexo,
E a personalidade que tenho est√° entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver s√≥ dois…
Um quarto estado pra alma, se s√£o tr√™s os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
D√≥i-me por detr√°s das costas da minha consci√™ncia de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem n√£o sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das can√ß√Ķes mortas do marinheiro de sonho…

√Ārvores paradas da quinta, vistas atrav√©s da janela,
√Ārvores estranhas a mim a um ponto inconceb√≠vel √† consci√™ncia de as estar vendo,

Continue lendo…

A TV Como Instrumento Redutor

Porque √© que a TV foi essa ¬ęcaixinha que revolucionou o mundo¬Ľ? Fa√ßo a pergunta e as respostas v√™m em turbilh√£o. Fez de tudo um espect√°culo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, isturado ao quotidiano dom√©stico. Porque mesmo um filme ou pe√ßa de teatro ou at√© um espect√°culo desportivo perdem a grandeza e metaf√≠sica de um largo espa√ßo de uma comunidade humana.

J√° um acto religioso √© muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV √© algo de min√ļsculo e trivial como o sof√° donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV √© um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por l√° chega at√© n√≥s diminu√≠do e desvalorizado no que lhe √© essencial. E a maior raz√£o disso n√£o est√° nas reduzidas dimens√Ķes do ecr√£, mas no facto de a ¬ęcaixa revolucionadora¬Ľ ser um objecto entre os objectos de uma sala.

Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum.

Continue lendo…

Vinda do Fundo

Vinda do fundo, luzindo
Ou atadura, escondendo,
Vindo escura
Ou pegajosa lambendo
Vinda do alto

Ou das ferraduras
Memoriosa se dizendo
Calada ou nova
Vinda da coitadez
Ou régia numas escadas
Subindo

Amada
Torpe
Esquiva

Benvinda.

Ignorado Ficasse O Meu Destino

Ignorado ficasse o meu destino
Entre pálios (e a ponte sempre à vista),
E anel concluso a chispas de ametista
A frase falha do meu p√≥stumo hino…

Florescesse em meu glabro desatino
O himeneu das escadas da conquista
Cuja preguiça, arrecadada, dista
Almas do meu impulso cristalino…

Meus ócios ricos assim fossem, vilas
Pelo campo romano, e a toga traça
No meu soslaio an√īnimas (desgra√ßa

A vida) curvas sob m√£os intranq√ľilas…
E tudo sem Cleópatra teria
Findado perto de onde raia o dia…

Chuva De Ouro

A Rainha desceu do Capitólio
Agora mesmo — vede-lhe o rega√ßo…
Como tem flores, como traz o braço
Farto de jóias, como pisa o sólio

Triunfantemente, numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espa√ßo…
E como desce com bravura de a√ßo…
Pois se a Rainha, como um rico espólio,

O seu brioso coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda est√£o gozando
B√™n√ß√£os mais puras qu’os clar√Ķes diurnos,

Por certo que h√° de vir descendo a escada
Do Capit√≥lio da virtude — olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!