Citação de

O Conceito de Nós Próprios

Cada homem, desde que sai da nebulose da inf√Ęncia e da adolesc√™ncia, √© em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas esp√©cies de pais: os nossos pais, propriamente ditos, a quem devemos o ser f√≠sico e a base heredit√°ria do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de n√≥s pr√≥prios – m√£e e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o h√°bito de se julgar inteligente, n√£o obter√° com isso, √© certo, um grau de intelig√™ncia que n√£o tem; mas far√° mais da intelig√™ncia que tem do que se julgar est√ļpido. E isto, que se d√° num caso intelectual, mais marcadamente se d√° num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais √© muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual Рabstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais Рé também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo passou para uma regenera√ß√£o, econ√≥mica ou outra, de Portugal √© criarmos um estado de esp√≠rito de confian√ßa – mais, de certeza, nessa regenera√ß√£o. N√£o se diga que os ¬ęfactos¬Ľ provam o contr√°rio. Os factos provam o que quer o raciocinador. Nem, propriamente, existem factos, mas apenas impress√Ķes nossas, a que damos, por conveni√™ncia, aquele nome. Mas haja ou n√£o factos, o que √© certo √© que n√£o existe ci√™ncia social – ou, pelo menos, n√£o existe ainda. E como assim √©, tanto podemos crer que nos regenaremos, como crer o contr√°rio.