Passagens sobre Incómodos

57 resultados
Frases sobre inc√≥modos, poemas sobre inc√≥modos e outras passagens sobre inc√≥modos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

As Decis√Ķes Nas Fam√≠lias

As decis√Ķes nas fam√≠lias ou se tomam no caso de um perfeito acordo entre os c√īnjuges ou, ent√£o, quando existe uma separa√ß√£o completa entre eles. Se as rela√ß√Ķes entre eles flutuam entre os dois extremos nada √© poss√≠vel decidir. Muitos casais levam anos e anos numa esp√©cie de ponto-morto, inc√≥modo para ambos, s√≥ porque n√£o existe entre eles nem acordo nem separa√ß√£o absoluta.

A Actualidade Absorve o Romance

O esp√≠rito do romance √© o esp√≠rito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: ¬ęAs coisas s√£o mais complicadas do que tu pensas¬Ľ. √Č a verdade eterna do romance mas que cada vez se faz menos ouvir na algazarra das respostas simples e r√°pidas que precedem a pergunta e a excluem. Para o esp√≠rito do nosso tempo √© ou Anna ou ent√£o Karenine quem tem raz√£o, e a velha sabedoria de Cervantes, que nos fala da dificuldade de saber e da inacess√≠vel verdade, parece inc√≥moda e in√ļtil.
O esp√≠rito do romance √© o esp√≠rito de continuidade: cada obra √© a resposta √†s obras precedentes, cada obra cont√©m toda a experi√™ncia anterior do romance. Mas o esp√≠rito do nosso tempo est√° fixado sobre a actualidade que √© t√£o expansiva, t√£o ampla, que empurra o passado do nosso horizonte e reduz o tempo ao √ļnico segundo presente. Inclu√≠do neste sistema, o romance j√° n√£o √© obra (coisa destinada a durar, a ligar o passado ao futuro) mas acontecimento da actualidade como outros acontecimentos, um gesto sem amanh√£.

Reformar é não Ter Emenda Possível

Todo o dia, em toda a sua desola√ß√£o de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informa√ß√Ķes de que havia revolu√ß√£o. Estas not√≠cias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desd√©m e de n√°usea f√≠sica. D√≥i-me na intelig√™ncia que algu√©m julgue que altera alguma coisa agitando-se. A viol√™ncia, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucion√°rios s√£o est√ļpidos, como, em grau menor, porque menos inc√≥modo, o s√£o todos os reformadores.
Revolucionário ou reformador Рo erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo;

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Na Noite Terrível

Na noite terr√≠vel, subst√Ęncia natural de todas as noites,
Na noite de ins√īnia, subst√Ęncia natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra inc√īmoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma ang√ļstia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irrepar√°vel do meu passado ‚ÄĒ esse √© que √© o cad√°ver!
Todos os outros cad√°veres pode ser que sejam ilus√£o.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu n√£o fui, o que eu n√£o fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que s√≥ agora claramente vejo que deveria ter sido ‚ÄĒ
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso ‚ÄĒ e foi afinal o melhor de mim ‚ÄĒ √© que nem os Deuses fazem viver …

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;

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Juízes Imparciais

Se quisermos ser ju√≠zes imparciais em qualquer circunst√Ęncia, devemos, antes de mais, ter em conta que ningu√©m est√° livre de culpa; o que est√° na origem da nossa indigna√ß√£o √© a ideia de que: ¬ęEu n√£o errei¬Ľ e ¬ęEu n√£o fiz nada¬Ľ. Pelo contr√°rio, tu recusas admitir os teus erros! Indignamo-nos quando somos castigados ou repreendidos, cometendo, simultaneamente, o erro de acrescentar aos crimes cometidos, a arrog√Ęncia e a obstina√ß√£o. Quem poder√° dizer que nunca infringiu a lei? E, se assim for, √© bem estreita inoc√™ncia ser bom perante a lei! Qu√£o mais vasta √© a regra do dever do que a regra do direito! Quantas obriga√ß√Ķes imp√Ķem a piedade, a humanidade, a bondade, a justi√ßa e a lealdade, que n√£o est√£o escritas em nenhuma t√°bua de leis!
Mas n√≥s n√£o podemos satisfazer-nos com aquela no√ß√£o de inoc√™ncia t√£o limitada: h√° erros que cometemos, outros que pensamos cometer, outros que desejamos cometer, outros que favorecemos; por vezes, somos inocentes por n√£o termos conseguido comet√™-los. Se tivermos isto em conta, somos mais justos para com os delinquentes, e mais persuasivos nas admoesta√ß√Ķes; em todo o caso, n√£o nos iremos contra os homens bons (de facto, contra quem n√£o nos sentiremos irados,

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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N√£o h√° Nada T√£o Enjoativo Quanto a Abund√Ęncia

O amor bem nutrido e excessivamente submisso logo nos enjoa e cansa, como o excesso de uma iguaria agrad√°vel cansa o est√īmago (Ov√≠dio). Julgam que os meninos de coro t√™m grande prazer com a m√ļsica? A saciedade toma-a antes tediosa. Os festins, as dan√ßas, as mascaradas, os torneios alegram os que n√£o os v√™em ami√ļde e que desejaram v√™-los; mas para quem o faz habitualmente o seu gosto torna-se ins√≠pido e desagra¬≠d√°vel; tamb√©m as mulheres n√£o excitam aquele que delas desfruta √† saciedade. Quem n√£o se d√° tempo para sentir sede n√£o poderia ter prazer em beber. As farsas dos saltimbancos divertem-nos, mas para os actores servem de obriga√ß√£o. E a prova disso √© que para os pr√≠ncipes s√£o de¬≠l√≠cias, √© festa poderem √†s vezes travestir-se e descer √† for¬≠ma de vida baixa e popular, frequentemente aos grandes apraz mudar; e refei√ß√Ķes frugais e asseadas sob o tecto de um pobre, sem tapete nem p√ļrpura, desenrugaram-¬≠lhes a fronte inquieta (Hor√°cio).
N√£o h√° nada t√£o inc√≥modo, t√£o enjoativo quanto a abund√Ęncia. Que apetite n√£o se repugnaria ao ver tre¬≠zentas mulheres √† sua merc√™, como as que tem o grande se¬≠nhor no seu serralho? E que prazer e que esp√©cie de ca¬≠√ßada buscara aquele ancestral seu que nunca ia para os campos com menos de sete mil falcoeiros?

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As dores incómodas que possam resultar do coito são pequenas em comparação com as que podem resultar da sua falta.

A Mocidade Prop√Ķe, a Maturidade Disp√Ķe

√Č fun√ß√£o da mocidade ser profundamente sens√≠vel √†s novas ideias como instrumentos r√°pidos para dominar o meio; e √© fun√ß√£o da idade madura opor-se tenazmente a essas ideias ; isso faz com que as inova√ß√Ķes fiquem em experi√™ncia por algum tempo antes que a sociedade as ponha em pr√°tica. A maturidade atenua as ideias novas, redu-las de modo a caberem dentro da possibilidade ou a que s√≥ se realizem em parte. A mocidade prop√Ķe, a maturidade disp√Ķe, a velhice op√Ķe-se. A mocidade domina nos per√≠odos revolucion√°rios; a maturidade, nos per√≠odos de reconstru√ß√£o; a velhice, nos per√≠odos de estagna√ß√£o. ¬ęD√°-se com os homens¬Ľ, diz Nietzsche, ¬ęo mesmo que com as carvoarias na floresta. S√≥ depois que a mocidade se carboniza √© que se torna utiliz√°vel. Enquanto est√° a arder ser√° muito interessante, mas inc√≥moda e in√ļtil.¬Ľ

Ah viver √© t√£o desconfort√°vel. Tudo aperta: o corpo exige, o esp√≠rito n√£o p√°ra, viver parece ter sono e n√£o poder dormir ‚Äď viver √© inc√≥modo. N√£o se pode andar nu nem de corpo nem de esp√≠rito.

Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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D√≥i e √© inc√īmodo. Vontade de n√£o saber perdoar, de n√£o ser compreensivo, tolerante, de n√£o me contentar com o pouco.

Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

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O Elixir do Prazer

Que √©, pois, o que se opera na alma, quando se deleita mais com as coisas encontradas ou reavidas que estima, do que se as possu√≠sse sempre? H√°, na verdade, muitos outros exemplos que o afirmam. Abundam os testemunhos que nos gritam: -¬ę√Č assim mesmo!¬Ľ. Triunfa o general vitorioso. Mas n√£o teria alcan√ßado a vit√≥ria se n√£o tivesse pelejado e quanto mais grave foi o perigo no combate, tanto maior √© o gozo no triunfo. A tempestade arremessa os marinheiros, amea√ßando-os com o naufr√°gio: todos empalidecem com a morte iminente. Mas tranquilizam-se o c√©u e o mar, e todos exultam muito, porque muito temeram. Est√° doente um amigo e o seu pulso acusa perigo. Todos os que o desejam ver curado sentem-se simultaneamente doentes na alma. Melhora. Ainda n√£o recuperou as for√ßas antigas e j√° reina tal j√ļbilo qual n√£o existia antes, quando se achava s√£o e forte.
Até os próprios prazeres da vida humana não se apossam do coração do homem só por desgraças inesperadas e fortuitas, mas por moléstias previstas e voluntariamente procuradas. Não há prazer nenhum no comer e beber, se o incómodo da fome e da sede o não precede. Por isso, os ébrios costumam tomar certos alimentos salgados,

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Descobrir profundidade em tudo, eis uma qualidade incómoda: faz com que se gastem incessantemente os olhos e que por fim se encontre sempre mais do que aquilo que se desejava.