Textos sobre Maneiras

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Textos de maneiras escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

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O Coração Oco do Homem

Sobrecarregam-se os homens desde a inf√Ęncia com o cuidado da sua honra, do seu bem, dos seus amigos, e ainda com o bem e a honra dos seus amigos. Fatigam-se de afazeres, de aprendizagem de l√≠nguas e exerc√≠cios, e faz-se-lhes sentir que n√£o poder√£o ser felizes sem que a sua sa√ļde, a sua honra, a sua fortuna e a dos seus amigos estejam em bom estado e que uma s√≥ coisa que faltasse os tornaria desgra√ßados. Assim d√£o-se-lhes cargos e neg√≥cios que os fazem afadigar-se desde o amanhecer. – A√≠ est√°, direis, uma estranha maneira de os tornar felizes!
Que poderia fazer-se de melhor para os tornar desgraçados? РComo! O que se poderia fazer? Bastava apenas tirar-lhes todos estes cuidados; pois então ver-se-iam a si mesmos, pensariam no que são, donde vêm e para onde vão; e assim não os podem ocupar demais nem desviá-los. E é por isso que, depois de lhes terem preparado tantos afazeres, se têm algum tempo de descanso, os aconselham a empregá-lo a divertir-se, a jogar e a ocupar-se sempre inteiramente.

A Luta para a Supress√£o Radical das Guerras

A minha participa√ß√£o na produ√ß√£o da bomba at√≥mica consistiu numa √ļnica ac√ß√£o: assinei uma carta dirigida ao presidente Roosevelt, na qual se sublinhava a necessidade de levar a cabo experi√™ncias em grande escala, para investiga√ß√£o das possibilidades de produ√ß√£o duma bomba at√≥mica.
Tive bem consciência do grande perigo que significava para a Humanidade o êxito desse empreendimento. Mas a probabilidade de que os Alemães trabalhassem no mesmo problema e fossem bem sucedidos, obrigou-me a dar este passo. Não tinha outra solução, embora tivesse sido sempre um pacifista convicto. Foi, portanto, uma reacção de legítima defesa.
Enquanto, por√©m, as na√ß√Ķes n√£o estiverem resolvidas a trabalhar em comum para suprimir a guerra, a resolverem os seus conflitos por decis√£o pac√≠fica e a protegerem os seus interesses de maneira legal, v√™em-se obrigadas a preparar-se para a guerra. V√™em-se, mais, obrigadas a preparar todos os meios, mesmo os mais detest√°veis, para n√£o se deixarem ficar para tr√°s, na corrida geral aos armamentos. Este caminho conduz fatalmente √† guerra que, nas condi√ß√Ķes actuais, significa destrui√ß√£o geral.
Nestas condi√ß√Ķes, a luta contra os meios n√£o tem probabilidades de √™xito. S√≥ ainda pode valer a supress√£o radical das guerras e do perigo de guerra.

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Um Sentimento de Inquietação

Deu-se ent√£o em mim uma esp√©cie de estalido. O panorama que se avistava daquele quarto provocava-me um sentimento de inquieta√ß√£o, uma apreens√£o que eu j√° conhecera. Aquelas fachadas, aquela rua deserta, aquelas silhuetas de sentinela no crep√ļsculo perturbavam-me √† maneira insidiosa de um perfume ou de uma can√ß√£o outrora familiares. E tive a certeza de que muitas vezes, √†quela mesma hora, ficava ali, im√≥vel, √† espreita, sem fazer o m√≠nimo gesto, sem ousar sequer acender a luz. Quando tornei a entrar na sala, julguei que j√° n√£o havia l√° ningu√©m, mas afinal estava a dona da casa estendida no banco de veludo. Dormia. Aproximei-me silenciosamente e sentei-me na outra ponta do banco. Uma bandeja com um bule e duas ch√°venas, no meio do tapete de l√£ branca. Tossi um pouco. Ela n√£o acordou. Ent√£o, deitei ch√° nas duas ch√°venas. Estava frio.

Moral para Psicólogos

N√£o cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar s√≥ por observar! Isso provoca uma √≥ptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta for√ßado e que exagera as coisas. O ter experi√™ncias, quando √© um querer-ter-experi√™ncias, ‚ÄĒ n√£o resulta bem. Na experi√™ncia n√£o √© l√≠cito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte ent√£o num ¬ęmau-olhado¬Ľ. Um psic√≥logo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este n√£o trabalha jamais ¬ęsegundo a natureza¬Ľ, encomenda ao seu instinto, √† sua c√Ęmara escura o crivar e exprimir o ¬ęcaso¬Ľ, a ¬ęnatureza¬Ľ, o ¬ęvivido¬Ľ… At√© √† sua consci√™ncia chega s√≥ o universal, a conclus√£o, o resultado: n√£o conhece esse arbitr√°rio abstrair do caso individual. ‚ÄĒ Que √© que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, √† maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos? Essa gente anda, por assim diz√™-lo, √† espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades… Por√©m veja-se o que acaba por sair da√≠ ‚ÄĒ um mont√£o de borr√Ķes, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que √© o resultado da soma de v√°rias coisas,

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A Idade só se Aplica às Pessoas Vulgares

A tend√™ncia para colocar uma √™nfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a no√ß√£o de pessoa velha ou nova s√≥ se aplica √†s pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados s√£o ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora s√£o tristes ora alegres. √Č coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experi√™ncia e benevol√™ncia com a pr√≥pria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas s√£o eles pr√≥prios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles pr√≥prios s√£o fan√°ticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade n√£o √© pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Ts√© n√£o √© pior que Buda e o azul n√£o √© pior que o vermelho. A idade s√≥ perde valor quando quer fingir ser juventude.

Prejudicar com o que se tem de Melhor

As nossas forças levam-nos por vezes tão longe que não podemos continuar a suportar as nossas fraquezas e disso perecemos: bem nos sucede prever esse resultado, mas não lhe podemos introduzir nenhuma modificação. Usamos então a dureza contra o que seria necessário poupar em nós memos, e a nossa grandeza faz a nossa barbárie.
Esta experi√™ncia, que acabamos por pagar com a vida, simboliza a ac√ß√£o dos grandes homens nos outros e no seu tempo: √© com aquilo que t√™m de melhor, com aquilo que s√£o os √ļnicos a poder fazer, que arruinam grande n√ļmero de seres fracos, incertos, sem vontade pr√≥pria, ainda em mudan√ßa, √© com aquilo que t√™m de melhor em si pr√≥prios que se tornam nocivos. Pode at√© acontecer que s√≥ prejudiquem porque aquilo que h√° de melhor nele s√≥ pode ser absorvido, esvaziado de um trago, de qualquer maneira, por seres que ali afogam a sua raz√£o e a sua individualidade, como se fosse num licor excessivamente forte: est√£o de tal modo embriagados que n√£o poder√£o deixar de partir os membros em todos os caminhos em que a sua embriaguez os fulminar√°.

A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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Abra√ßa o Conte√ļdo e N√£o a Forma

√Äs vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequ√™ncias do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque s√≥ √© poss√≠vel amar atrav√©s da mulher e n√£o a mulher. Atrav√©s do poema e n√£o o poema. Atrav√©s da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da ang√ļstia de n√£o se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com ins√≥nias, volta-se e torna-se a voltar na cama, √† procura do fresco ombro do leito. Mas basta toc√°-lo, para ele se tornar t√©pido e recusar-se. E ele procura noutro s√≠tio uma fonte dur√°vel de frescura. Mas n√£o consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provis√£o esvai-se.
O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. N√£o passam de vazios os seres que n√£o s√£o janelas ou frestas para Deus. √Č por isso que, no amor vulgar, s√≥ amas o que te foge. De outra maneira, v√™s-te saciado e descoro√ßoado com a tua satisfa√ß√£o.

A Gravidade e a Seriedade nem Sempre andam Juntas

Tomar a verdade a s√©rio! De quantas maneiras diferentes n√£o entendem os homens esta frase! S√£o as mesmas opini√Ķes, as mesmas formas de exame e de demonstra√ß√£o que um pensador considera com uma ligeireza quando as aplica por si pr√≥prio – sucumbiu-lhes para sua vergonha, neste ou naquele momento da sua vida -, s√£o essas mesmas opini√Ķes, esses mesmos m√©todos que podem dar a um artista, quando com eles se choca e com eles vive algum tempo, a consci√™ncia de ter sido dominado pela profunda gravidade da verdade, de ter mostrado – coisa espantosa -, ainda que artista, a mais s√©ria necessidade do contr√°rio da apar√™ncia.
√Č assim que acontece que uma pomposa gravidade revele precisamente a aus√™ncia de seriedade com que um esp√≠rito que se contenta com pouco se tenha debatido at√© ent√£o no dom√≠nio do conhecimento… N√£o somos n√≥s sempre tra√≠dos por aquilo que consideramos importante? A nossa gravidade mostra onde se encontram os nossos pesos e os casos em que temos falta deles.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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O Sentimento de Poder

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O facto de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos actos; mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservar o nosso sentimento de poder.

A Força Criadora

O maior m√©rito do homem consiste sem d√ļvida em determinar tanto quanto poss√≠vel as circunst√Ęncias e em deixar-se determinar por elas t√£o pouco quanto poss√≠vel. Todo o universo est√° perante n√≥s como uma grande pedreira perante o arquitecto, o qual s√≥ merece esse nome se com a maior economia, conveni√™ncia e solidez constituir, a partir dessas massas acidentalmente acumuladas pela Natureza, o prot√≥tipo nascido no seu esp√≠rito. Fora de n√≥s, tudo √© apenas elemento. Sim, at√© posso dizer: tudo o que h√° em n√≥s tamb√©m. Mas no fundo de n√≥s pr√≥prios encontra-se essa for√ßa criadora que nos permite produzir aquilo que tem de ser e que n√£o nos deixa descansar, nem repousar, enquanto n√£o o tivermos realizado, de uma maneira ou de outra, fora de n√≥s ou em n√≥s.

A Perenidade das Ideias

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias t√™m de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras v√£s; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, √† maneira dessas massas inertes que algumas mulheres d√£o √† luz e que, em suma, n√£o s√£o mais do que um sonho da mat√©ria. Uma boa parte dos produtos do esp√≠rito n√£o passava tamb√©m de disformes sombras lunares. Outras no√ß√Ķes, mais claras e n√≠tidas, como que fabricadas por um mestre artes√£o, eram, por√©m, como aqueles objectos que, √† dist√Ęncia, iludem; imensamente admir√°veis eram os seus √Ęngulos e arestas; e todavia n√£o passavam de grades aonde o entendimento a se mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade n√£o tardaria a carcomir.
Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmutação: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do cérebro humano; não se conseguia, contudo, mais do que uma equivalência; da mesma forma que, naquelas experiências grosseiras em que os alquimistas da corte tentam provar aos príncipes seus clientes que algo descobriram, não era o ouro, no fundo da retorta, senão o de um banal ducado que, depois de correr de mão em mão,

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A Mentira Agrada Mais do Que a Verdade

O esp√≠rito do homem √© feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experi√™ncia: ide √† igreja, quando a√≠ est√£o a pregar. Se o pregador trata de assuntos s√©rios, o audit√≥rio dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perd√£o, o pregador), como ali√°s √© frequente, come√ßa a contar uma hist√≥ria de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das aten√ß√Ķes.
Como √© f√°cil essa felicidade! Os conhecimentos mais f√ļteis, como a gram√°tica por exemplo, adquirem-se √† custa de grande esfor√ßo, enquanto a opini√£o se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho ran√ßoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambr√≥sia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contr√°rio, o esturj√£o causa n√°useas a outro, que temos n√≥s com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a V√©nus, para o marido √© o mesmo do que se ela fosse bela.

Glória Efémera ou Eterna

Via de regra, a glória será tanto mais tardia quanto mais for durável, pois tudo aquilo que é excelente amadurece de maneira lenta. A glória que se tornará póstera assemelha-se a um carvalho que cresce bem lentamente a partir da sua semente; a glória fácil, efémera, assemelha-se às plantas anuais, que crescem rapidamente, e a glória falsa parece-se com erva daninha, que nasce num piscar de olhos e que nos apressamos em arrancar. Esse desenrolar das coisas relaciona-se com o facto de que, quanto mais alguém pertence à posteridade, ou seja, à humanidade geral e inteira, tanto mais estranho será à sua época, pois o que ele produz não é especialmente dedicado a ela como tal, mas só na medida em que a mesma é uma parte da humanidade; logo, as suas obras não são tingidas com a cor local do seu tempo; todavia, em consequência disso, pode acontecer que tal indivíduo passe facilmente como um estranho pela sua época.
Esta prefere apreciar aqueles que tratam os assuntos do seu dia-a-dia ou que servem ao humor do momento, portanto, os factos que pertencem integralmente a ela, que com ela vivem e com ela morrem. Por isso, a hist√≥ria da arte e da literatura ensina geralmente que as mais elevadas realiza√ß√Ķes do esp√≠rito humano,

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Subtilezas Enganadoras

Há subtilezas frívolas por meio das quais, algumas vezes, os homens procuram alcançar reputação: é o caso dos poetas que fazem inteiras obras começando cada verso por uma letra. Similarmente vemos ovos, bolas, asas e machados formados por poetas gregos da Antiguidade com a medida dos seus versos, ora alongados ora encurtados de maneira a virem a representar esta ou aquela figura.
(…) √Č um maravilhoso testemunho da fraqueza do nosso ju√≠zo que ele d√™ pre√ßo √†s coisas pela raridade ou pela novidade, ou ainda pela dificuldade, quando a estas n√£o se juntam a bondade e a utilidade.

As Infelizes Necessidades do Homem Civilizado

Um autor c√©lebre, calculando os bens e os males da vida humana, e comparando as duas somas, achou que a √ļltima ultrapassa muito a primeira, e que tomando o conjunto, a vida era para o homem um p√©ssimo presente. N√£o fiquei surpreendido com a conclus√£o; ele tirou todos os seus racioc√≠nios da constitui√ß√£o do homem civilizado. Se subisse at√© ao homem natural, pode-se julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o homem s√≥ tem os males que se criou para si mesmo, o que √† natureza se faria justi√ßa. N√£o foi f√°cil chegarmos a ser t√£o desgra√ßados. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ci√™ncias profundas, tantas artes inventadas, tantas for√ßas empregadas, abismos entulhados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados naveg√°veis, terras arroteadas, lagos cavados, pantanais dissecados, constru√ß√Ķes enormes elevadas sobre a terra, o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da esp√©cie humana, s√≥ nos podemos impressionar com a espantosa despropor√ß√£o que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do homem, que, para nutrir o seu orgulho louco, n√£o sei que v√£ admira√ß√£o de si mesmo,

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Como Nasce o Amor?

Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em fisiologia, que é a ciência do homem físico, não se sabe. A psicologia também não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da matéria, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.
Dizer que o amor √© a sensualidade, al√©m de grosseira defini√ß√£o, √© falsidade desmentida pela experi√™ncia. H√° um amor que n√£o rasteja nunca no raso estrado das propens√Ķes org√Ęnicas.
Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionários, que trazem sempre as mulheres pelas estrelas, ao mesmo tempo que elas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira dos mortais, e até das divindades do cantor de Aquiles.
Eu conhe√ßo homens, sem fa√≠sca de esp√≠rito, que se abrazam tocados pelo amor como o f√≥sforo em presen√ßa do ar. Eis aqui um fen√≥meno eminentemente importante. Ele, s√≥, sustenta em tese que o amor n√£o tem nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que √© um fluido. √Č pena, por√©m, que eu n√£o saiba o que √© fluido para me dar aqui uns ares pedantescos,

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A Diferença entre Ficção e Crença

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o stock primitivo de ideias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas ideias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca. Ela pode inventar uma série de eventos com toda a aparência de realidade, pode atribuir-lhes um tempo e um lugar particulares, concebê-los como existentes e des­crevê-los com todos os pormenores que correspondem a um facto histórico, no qual ela acredita com a máxima certeza. Em que consiste, pois, a diferença entre tal ficção e a crença?
Ela não se localiza sim­plesmente numa ideia particular anexada a uma concepção que obtém o nosso assentimento, e que não se encontra em nenhuma ficção conhecida. Pois, como o espírito tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia voluntariamente anexar esta ideia particular a uma ficção e, por conseguinte, seria capaz de acreditar no que lhe agradasse, embora se opondo a tudo que encontramos na experiência diária. Po­demos, quando pensamos, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo, mas não está em nosso poder acreditar que semelhante animal tenha alguma vez existido.

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