Como Lidar com as Perturbações
Não pretendem os estóicos que a alma do seu sábio possa resistir às primeiras visões e fantasias que lhe sobrevêm; antes, como a uma sujeição natural, consentem que ele ceda ao grande barulho do céu ou de um desabamento, por exemplo, até à palidez e à contracção. Assim também nas outras paixões (impressões penosas), contanto que o seu julgamento permaneça salvo e íntegro e que a disposição do seu raciocínio não sofra dano nem qualquer alteração, e que ele não dê a menor aquiescência ao seu terror e sofrimento.
Para aquele que não é sábio acontece o mesmo na primeira parte, mas coisa muito diferente na segunda; pois nele a impressão das paixões não permanece superficial, mas vai penetrando até à sede da razão, infectando-a e corrompendo-a. Ele julga segundo as paixões e a elas se conforma. Vede muito eloquente e claramente o estado do sábio estóico: Inutilmente as suas lágrimas rolam: a sua alma é inflexível (Virgílio). O sábio peripatético não se isenta das perturbações, e sim modera-as.
Passagens sobre Sofrimento
456 resultadosO preconceito da raça é injusto e causa grande sofrimento às pessoas.
Em Louvor das Crianças
Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que,
Cada mulher sente o sofrimento de todas as mulheres.
Lembranças Saudosas
Lembranças saudosas, se cuidais
De me acabar a vida neste estado,
Não vivo com meu mal tão enganado,
Que não espere dele muito mais.De longo tempo já me costumais
A viver de algum bem desesperado:
Já tenho co’a Fortuna concertado
De sofrer os tormentos que me dais.Atada ao remo tenho a paciência
Para quantos desgostos der a vida;
Cuide quanto quiser o pensamento.Que pois não posso ter mais resistência
Para tão dura queda, de subida,
Aparar-lhe-ei debaixo o sofrimento.
No meu caso, a literatura é uma espécie de vingança. É algo que me dá aquilo que a vida real não me pode dar – todas as aventuras, todo o sofrimento. Todas as experiências que eu só posso viver na na imaginação, a literatura completa-as.
Em verdade, as coisas boas acontecem a despeito de nossos desejos, por vezes até mesmo em oposição ao que desejamos, e muitas vezes, após nossa excitação e sofrimento por causa de coisas sem mérito.
O sofrimento só embeleza o que é belo.
O sofrimento não é medida de vida: o sofrimento é subproduto fatal e, por mais agudo, é negligenciável.
Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida, ou se conseguir ajudar um passarinho que está fraco a encontrar o ninho… A vida terá valido a pena.
Em qualquer situação, as mulheres têm mais causas de sofrimento que o homem, e padecem mais que ele.
Ter de suportar e de ser a causa de tanto sofrimento!
A alegria tem uma vergonha que é só dela e é malcriado proclamá-la. Ou, pelo menos, cria a impressão de dar azar. Parece existir, no contrato existencial, uma obrigação para com a tristeza que não destoe do mau estado do mundo e do sofrimento humana.
Não há palavras adequadas para o sofrimento causado pela fome. Até ao dia de hoje sinto necessidade de mostrar à fome que escapei ao seu alcance. Desde que eu parei de ter fome, eu literalmente como a vida em si. E quando como, estou trancado dentro do gosto de comer. Durante sessenta anos, desde que voltei do acampamento, tenho comido contra a fome.
Simplicidade Extrema
Põe de lado os estudos e não conhecerás o sofrimento. Põe de lado a erudição e afasta a sabedoria e o povo será cem vezes mais beneficiado. Põe de lado a benevolência e afasta a rectidão e o povo te pagará com dever filial e amor fraternal. Põe de lado o artifício e afasta o lucro e não haverá mais bandoleiros e ladrões. Mantém-te na simplicidade, restringe o egoísmo e refreia os desejos.
Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia
Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto não poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso dá cor a tudo o que eu diga ou faça. Se soubesses o quão fiel te sou! Não apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui não há qualquer tentação para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que «se eu nunca tivesse ido para a Europa…», não era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.
Mas não posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu és a Europa. Pegaste em mim, um homem despedaçado, e tornaste-me completo. E não hei-de desintegrar-me — não existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sensível, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico à tua porta e espero por ti,
Deve-se ter o mínimo de respeito pelo sofrimento e sofrer-se sozinho. Os portugueses não são capazes. Exibem as más-disposições de uma maneira assustadora. Se andam de trombas, andam trombudos pela rua. Não disfarçam. Deviam disfarçar. Usar capote como o «Elephant Man». Mesmo quando estão indispostos sem saber bem porquê, anunciam «Não sei o que tenho, mas não tenho andado nada bem…».
Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.
As Saudades que Sinto de Ti
Meu Bebé, meu Bebezinho querido:
Sem saber quando te entregarei esta carta, estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudança de amanhã de manhã. Estou outra vez mal da garganta; está um dia de chuva; estou longe de ti — e é isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspectiva da maçada da mudança amanhã, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde não está absolutamente ninguém. Naturalmente (a não ser que esteja já inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo, o que faço é ir pedir guarida cá na Baixa ao Marianno Sant’Anna, que, além de ma dar de bom grado, me trata da garganta com competência, como fez no dia 19 deste mês quando eu tive a outra angina.
Não imaginas as saudades de ti que sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza. O outro dia, quando falei contigo a propósito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com razão) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de saúde, pouco te rales com o que os outros sofrem,
Há muita gente para quem o receio dos males futuros é mais tormentoso que o sofrimento dos males presentes.