Passagens sobre Desconforto

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Frases sobre desconforto, poemas sobre desconforto e outras passagens sobre desconforto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as √°guas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clar√£o das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A √°gua cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clar√£o nascente do arrebol…

Sofredora

Cobre-lhe a fria palidez do rosto
O sendal da tristeza que a desola;
Chora – o orvalho do pranto lhe perola
As faces maceradas de desgosto.

Quando o ros√°rio de seu pranto rola,
Das brancas rosas do seu triste rosto
Que rolam murchas como um sol j√° posto
Um perfume de l√°grimas se evola.

Tenta às vezes, porém, nervosa e louca
Esquecer por momento a m√°goa intensa
Arrancando um sorriso à flor da boca.

Mas volta logo um negro desconforto,
Bela na Dor, sublime na Descrença.
Como Jesus a soluçar no Horto!

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo.
E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestra√ß√£o que no seu cr√Ęnio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a evers√£o do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo.

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!

A Censura de Um Deve Pesar Mais que uma Plateia de Ignorantes

Hamlet (para um dos actores): Portanto, nada de conten√ß√£o exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto √† palavra, a palavra ao gesto, e cuide de n√£o perder a simples naturalidade. Pois tudo o que √© for√ßado foge do prop√≥sito da actua√ß√£o, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e √© erguer um espelho diante da natureza. Mostrar √† virtude as suas fei√ß√Ķes; ao orgulho, o desprezo, e a cada √©poca e gera√ß√£o, sua figura e estampa. O exagero e a imper√≠cia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; √†queles cuja censura, ainda que de um s√≥, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.

Reformar é não Ter Emenda Possível

Todo o dia, em toda a sua desola√ß√£o de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informa√ß√Ķes de que havia revolu√ß√£o. Estas not√≠cias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desd√©m e de n√°usea f√≠sica. D√≥i-me na intelig√™ncia que algu√©m julgue que altera alguma coisa agitando-se. A viol√™ncia, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucion√°rios s√£o est√ļpidos, como, em grau menor, porque menos inc√≥modo, o s√£o todos os reformadores.
Revolucionário ou reformador Рo erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo;

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A Vontade de Mudar

A mudan√ßa implica dor. D√≥i porque nos obrigamos a romper com padr√Ķes calcinados de conforto e pregui√ßa onde controlamos e sabemos tudo. Obriga-nos a crescer e n√£o h√° nada que cres√ßa sem nos abanar, criar desconforto e necessidade de adapta√ß√£o. Mas quem muda sempre alcan√ßa. Ningu√©m chega a lado nenhum que valha a pena sem ter mudado alguma coisa. A vontade de mudar √© uma esp√©cie de igni√ß√£o que liga o principal motor que nos conduz, o cora√ß√£o. Mudar √© voltar a sentir, assumir responsabilidades, curar o que h√° para ser tratado e, finalmente, agir. E muitas vezes nem √© preciso sair do mesmo lugar, basta alterarmos o significado mental que damos √† situa√ß√£o que estamos a viver.

Protesto

Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a v√≠tima n√ļbil, a √°urea mola
que cinge o amor recente aos idos.

Mas é também no teu corpo que corre
o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos.

nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

Mas é também no teu corpo insano
que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a vis√£o que me solicita.

Mas √© tamb√©m no teu corpo √ļnico
que o amor √† forma do Amor re√ļno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

Mas é também teu corpo a medida
destas √°guas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu √ļltimo ref√ļgio,

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A Genética Condiciona a Felicidade

Uma era de felicidade simplesmente n√£o √© poss√≠vel porque as pessoas querem apenas desej√°-la, mas n√£o possu√≠-la, e cada indiv√≠duo aprende durante os seus bons tempos a de facto rezar por inquieta√ß√Ķes e desconforto. O destino do homem est√° projetado para momentos felizes ‚ÄĒ toda a vida os t√™m ‚ÄĒ, mas n√£o para eras felizes. Estas, por√©m, permanecer√£o fixadas na imagina√ß√£o humana como “o que est√° al√©m das montanhas”, como um legado de nossos ancestrais: pois o conceito de uma era de felicidade foi sem d√ļvida adquirido nos tempos primordiais, a partir da condi√ß√£o em que, depois de um esfor√ßo violento na ca√ßa e na guerra, o homem se entrega ao repouso, estica os membros e sente as asas do sono ro√ßando a sua pele. Ser√° uma falsa conclus√£o se, na trilha dessa remota e familiar experi√™ncia, o homem imaginar que, ap√≥s eras inteiras de labor e inquieta√ß√£o, ele poder√° usufruir, de modo correspondente, daquela condi√ß√£o de felicidade intensa e prolongada.

A Psicologia do Medo

O medo √© o que impede que tudo o que chega √†s ma√Ķs dos homens n√£o se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impress√£o que n√£o se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. √Č assim que milh√Ķes de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, sen√£o as mesmas.

Escrevo com dificuldade, sou muito lento, o que parece paradoxal em rela√ß√£o ao n√ļmero de livros que j√° publiquei. Mas, se n√£o escrevo, √© como se me vestisse sem tomar banho. Um grande desconforto interior.

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em f√ļria;
E num rumor de choro, uma voz de lam√ļria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solid√£o numa sombra infinita e constante…

Tu, que √©s forte, rebrame em f√ļria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expans√£o livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n’alma instintos de chacal…
E compreendo Nero incendiando Roma.

A Origem do Medo

A condição psicológica do medo está divorciada de qualquer perigo concreto e real. Surge sob diversas formas: desconforto, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, temor, fobia, etc. Este tipo de medo psicológico é sempre algo que poderá acontecer e não algo que esteja a acontecer no momento. O leitor está aqui e agora, enquanto a sua mente se encontra no futuro. Este facto gera um hiato de ansiedade. Além disso, se o leitor se identificar com a sua mente e tiver perdido o contacto com o poder e a simplicidade do Agora, esse hiato de ansiedade acompanhá-lo-á constantemente.

A pessoa pode sempre lidar com o momento presente, mas não o consegue fazer com algo que é apenas uma projeção mental Рnão é possível lidar com o futuro.
E enquanto o leitor se identifica com a sua mente, o ego comanda a sua vida. Devido à natureza ilusória que lhe é característica e apesar dos mecanismos de defesa elaborados, o ego torna-se muito vulnerável e inseguro, vendo-se a si próprio constantemente sob ameaça. Este facto, a propósito, é o que acontece, mesmo que por fora o ego pareça muito confiante. Agora lembre-se de que uma emoção é a reação do corpo à mente.

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Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

Tabacaria

N√£o sou nada.
Nunca serei nada.
N√£o posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milh√Ķes do mundo que ningu√©m sabe quem √©
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a p√īr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje l√ļcido, como se estivesse para morrer,
E n√£o tivesse mais irmandade com as coisas
Sen√£o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

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Revelação

II

Treva e fulgura√ß√£o; s√Ęnie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia feto vivo e aborto. ..
– Tudo a unidade do meu ser resume!

Sou eu que, ateando da alma o occíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!

Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa
Dos limites org√Ęnicos estreitos,
Dentro nos quais recalco em v√£o minha √Ęnsia,

Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Subst√Ęncia!

Como eu caminho calmamente enquanto a minha cabeça palpita e um ramo que oscila levemente por sobre a minha cabeça me causa o maior dos desconfortos. Tenho dentro de mim a calma, a segurança, como as outras pessoas, mas de qualquer maneira estão invertidas.

Ser Amado

Às vezes, é preciso conseguirmos o que não se consegue: parar de amar por um momento, para se ser amado por quem se ama.
Seria bom podermos parar para nos sentirmos amados sem ser de volta, na confusão de duas pessoas a amarem-se. Se não amássemos quem amássemos, talvez pudéssemos receber o amor dela e saber como era.
Mas n√£o √© prov√°vel. Se n√£o a am√°ssemos, n√£o querer√≠amos saber. Ser amado seria um pedido, uma intromiss√£o, um desconforto √† espera de uma resposta nossa, de uma desilus√£o, de uma insensibilidade √†quele amor que n√£o queremos para nada, que nos apanhou e embara√ßa. Se calhar, na vida e na morte de quem ama e quem se ama, s√≥ se sente o n√£o ser amado e o j√° n√£o ser amado e, quando muito, o j√° ter sido amado. A aus√™ncia e a tristeza, por muito grandes que sejam, n√£o s√£o t√£o grandes como a presen√ßa, a alegria e a ang√ļstia do amor vivo, que ocupa os corpos todos e as almas todas.
√Č pena que enquanto se √© amado por algu√©m nunca pare√ßa que se √©. Amado, de certeza, incondicionalmente, como √© amado – tamb√©m sem saber –

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A Raiz do Vício

Um v√≠cio, apesar de ser uma terr√≠vel depend√™ncia e um p√©ssimo h√°bito, √© um escape maravilhoso e uma profunda ilus√£o acerca do ¬ęsentir bem¬Ľ. Quando n√£o tens nada para fazer ou n√£o sabes como te acalmar fumas uns cigarros ou coisas do g√©nero, entopes-te de comida, bebes uns copos e assim andas sempre ocupado e falsamente tranquilo, pois ap√≥s o efeito seja do que for voltas ao mesmo estado em que te encontravas. Perd√£o, n√£o me fiz entender bem: fumas sem vontade de fumar, comes sem vontade de comer e bebes sem vontade de beber. Isto √© ser viciado, √© pura polui√ß√£o, sobretudo quando n√£o existe um desejo natural de faz√™-lo. Esclarecido? √ďtimo. J√° percebeste o teu desafio? N√£o, n√£o √© deixares de ser um viciado, isso n√£o √© um problema porque tens consci√™ncia que o √©s, logo, podes mudar quando entenderes apaixonar-te por ti, o problema √© outro e, se queres saber, bem mais s√©rio. Consegues descobri-lo? Era excelente se o dissesses antes de me leres: significaria que tamb√©m j√° estarias consciente disso e, nesse sentido, deixaria de ser mais um problema na tua vida. Os problemas s√£o, √ļnica e exclusivamente, fruto da inconsci√™ncia, pois quando se tem consci√™ncia do que se passa j√° n√£o √© um problema,

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