Citação de

Quando a Fortuna Encetou com Desgraças

Quando a Fortuna, de inconstante aviso,
Encetou com desgraças
O varĂŁo que nĂŁo veio humilde, abjecto
Adorar o seu Nume,
Na refalsada Corte, ou ante os cofres
Chapeados de Pluto;
Levando avante, o seu empenho, e acinte,
Maléfica lhe emborca
Sobre a cabeça a mágoas devotada,
Toda a Urna infelice,
Que Jove encheu colĂ©rico co’as penas
De atormentado inferno.
Dos ombros do VarĂŁo constante e justo
Resvalam debruçadas
Perdas de bens, desonras mal sofridas
A lhe aferrar o peito
Co’as garras afaimadas da pobreza;
Logo os tristes Pesares
Em torno ao coração serpeiam, mordem,
Trajando a rojo lutos.
Vem a má nova, de agouradas falas,
Que se compõe sequela
De tibiezas, senões, desconfianças,
Desamparo de amigos.
A Doença, com mão finada abrange
Os fatigados membros
E no âmago do peito as amargaras
VĂŁo assentar morada.
Com Ă­ndice maligno a ProvidĂŞncia
Lhe aponta no futuro,
Em nebuloso quadro hĂłrridas formas
De sinistros sucessos.
Quem nĂŁo quisera, com melhor semblante
Despedir-se do dia,
E fraudar, com as sombras do jazigo,
Do Fado os ameaços?
Qual Ă© a alma tĂŁo forte, que resista
Aos prantos duma Amante
Ingénua, comedida, afável, terna,
Que, nos braços da Angústia,
Implora com os olhos arrasados
De lágrimas mimosas,
Arredado socorro, e este lh’o embarga
Ă€s desprezadas portas
O agudo rosto da Miséria esquiva!
Amigos insensĂ­veis
Vede, que Ă© obra vossa este rascunho
Das penas de Filinto:
Obra vossa, que o dais ao desamparo
Com culpado descuido.