Passagens sobre Partida

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Frases sobre partida, poemas sobre partida e outras passagens sobre partida para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Despondency

Deix√°-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade…
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram…

Deix√°-la ir, a vela, que arrojaram
Os tuf√Ķes pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul levantaram…

Deix√°-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
√Ä morte queda, √† morte silenciosa…

Deix√°-la ir, a nota desprendida
D’um canto extremo… e a √ļltima esperan√ßa…
E a vida… e o amor… Deix√°-la ir, a vida!

Daí-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avança.

Esta Noite Morrer√°s

Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse hor√°rio de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma,

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Toda a Sociedade Est√° dentro de Mim

Fazer qualquer coisa ao contr√°rio do que todos fazem √© quase t√£o mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupa√ß√£o com os outros, uma igual consulta da opini√£o deles – caracter√≠stica certa da inferioridade absoluta. Abomino por isso a gente como Oscar Wilde e outros que se preocupam com seres imorais ou infames, e com o impingir paradoxos e opini√Ķes delirantes. Nenhum homem superior desce at√© dar √† opini√£o alheia tal import√Ęncia que se preocupe em contradiz√™-la.
Para o homem superior n√£o h√° outros. Ele √© o outro de si pr√≥prio. Se quer imitar algu√©m, √© a si pr√≥prio que procura imitar. Se quer contradizer algu√©m, √© a si mesmo que busca contradizer. Procura ferir-se, a si pr√≥prio, no que de mais √≠ntimo tem… faz partidas √†s suas pr√≥prias opini√Ķes, tem longas conversas cheias de desprezo e com as sensa√ß√Ķes que sente. Todo o homem que h√° sou Eu. Toda a sociedade est√° dentro de mim. Eu sou os meus melhores amigos e os meus verdadeiros inimigos. O resto – o que est√° l√° fora – desde as plan√≠cies e os montes at√© √†s gentes – tudo isso n√£o √© sen√£o paisagem…

A Meus Filhos

A meus filhos
desejo a curva do horizonte.

E todavia deles tudo em mim desejo:
o felino gosto de ver,
o brilho chuvoso da pele,
as m√£os que desvendam e amam.

Marga,
meu fermento,
neles caminho e me procuro,
a corpo igual regresso:

ao r√°pido besouro das l√°grimas,
ao calor da boca dos c√£es,
à sua língua de faca afectuosa;

à seta que disparam os ibiscos,
à partida solene da cama de grades,
ao encontro, na praia, com as algas;

à alegria de dormir com um gato,
de ver sair das vacas o leite fumegante,
à chegada do amor aos quatro anos.

Julguei gostar dum homem em toda a minha vida e afinal nem desse gostei porque o esqueci em menos tempo do que uma criança leva a esquecer uma boneca partida.

Esquecemos que todos os povos do mundo são pacíficos, à partida. Os povos não são um produto genético, imutável. São produto da História. E a História pode facilmente converter os desejos de Paz em violência pessoal e social.

Neste meu coração sempre estarás,
Enquanto a alma estiver com ele unida;
Meu esp’rito tamb√©m possuir√°s,
Depois que a alma do corpo for partida.
……………………………….
Impossível será que eternamente
Estês de mim ausente, estando ausente.

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na met√°fora dada
pela inf√Ęncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de raz√£o nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite t√£o quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguir√°.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas Рé sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.

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Que este Amor n√£o me Cegue

Que este amor n√£o me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar n√£o se perca nas tulipas
Pois formas t√£o perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Pequenos Poemas Mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem n√£o sai de sua casa,
n√£o atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implac√°veis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com ind√īmitos √≥dios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade in√ļtil,
in√ļtil e v√£,
riqueza de miser√°veis.

II

Como sempres, h√°-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunir√°, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
√Č prov√°vel, mas desconfiados e inv√°lidos,
Rosnando est√ļpidos, com c√£es.

√ď in√ļteis, aquietai-vos!
Voltai como os c√£es das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto…
Esse des√Ęnimo e essa vaidade…
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela,

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Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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Natureza Humana

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandem√īnio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela m√ļrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.

A Velha Angra

Olhou sobre a velha Angra, aninhada aos p√©s do Monte Brasil, as arauc√°rias erguendo-se contra o c√©u cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e pal√°cios, as suas igrejas. Imaginou marinheiros e mercadores, saltimbancos e aventureiros a caminho das sete partidas do mundo. Charlat√£es bebiam vinho com mission√°rios, soldados negociavam servi√ßos com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao servi√ßo do rei sobre novas e mais rent√°veis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro. Havia escravos e b√™bedos, burocratas e crian√ßas furtivas, freiras e casais de condenados com destino ao Brasil, e toda essa gente circulava pela cidade como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um cora√ß√£o descompassado que era o pr√≥prio movimento do mar, furioso, naufragando naus e gale√Ķes como numa tela de Vernet.

Encostei-me

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento n√£o ter responsabilidades nenhumas,
De n√£o ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imagina√ß√£o, sem d√ļvida um pouco sono,
Irrequieto t√£o sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e n√£o sabia √°lgebra,
Nem as outras √°lgebras com x e y’s de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem import√Ęncia nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros an√°logos ‚ÄĒ
Aqueles momentos em que n√£o tive import√Ęncia nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solid√£o,

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Os Amigos Nunca S√£o para as Ocasi√Ķes

Os amigos nunca s√£o para as ocasi√Ķes. S√£o para sempre. A ideia utilit√°ria da amizade, como entreajuda, pronto-socorro m√ļtuo, troca de favores, dep√≥sito de confian√ßa, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade √© puro prazer. N√£o se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se d√≠vidas. Pede-se, d√°-se, recebe-se, esquece-se e n√£o se fala mais nisso.

A decad√™ncia da amizade entre n√≥s deve-se √† instrumentaliza√ß√£o que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa esp√©cie de ma√ßonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. √Č por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem la√ßos pol√≠ticos ou comerciais. Se algu√©m ¬ęfalta¬Ľ ou ¬ęn√£o corresponde¬Ľ, se n√£o cumpre as obriga√ß√Ķes contratuais, √© logo condenado como ¬ęmau¬Ľ amigo e sumariamente proscrito. Est√° tudo doido. S√≥ uma mis√©ria destas obriga a dizer o √≥bvio: os amigos s√£o as pessoas de que n√≥s gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de n√≥s. N√£o interessa. A amizade √© um gosto ego√≠sta, ou inevitabilidade, o caminho de um cora√ß√£o em roda-livre.

Os amigos t√™m de ser in√ļteis. Isto √©, bastarem s√≥ por existir e,

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Adeus

Sim, vou partir.
E n√£o levo saudade
De ninguém
Nem em ti penso agora!
Julgavas que a tristeza desta hora
Fosse maior que a firme vontade
Que eu pus em destruir
O luminoso fio de ternura
Que me prendia ao teu olhar?
Julgaste mal:
Eu sei amar,
Mas meu amor
O que eu n√£o sei
√Č ser banal!

Mas por que vim eu escrever-te ainda?
Nem eu sei!
Talvez somente
O hábito cortês da despedida
– e o h√°bito faz lei!

Choro?! Oh, sim , perdidamente!
Mas sabes tu, por que este pranto
Assim amargo e soluçado vem?
√Č que na hora da partida
Eu nunca pude sem chorar
Dizer adeus a ninguém!