Passagens sobre Duração

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Frases sobre dura√ß√£o, poemas sobre dura√ß√£o e outras passagens sobre dura√ß√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A arte é tudo porque só ela tem a duração Рe tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da Terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas.

Ambição e Poder

Examinemo-nos no momento em que a ambi√ß√£o nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos ¬ęacessos¬Ľ. Verificaremos que estes s√£o precedidos de sintomas cuirosos, de um calor especial, que n√£o deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperan√ßa, sentimo-nos de s√ļbito respons√°veis pelo presente e pelo futuro, no n√ļcleo da dura√ß√£o, carregada esta dos nossos fr√©mitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso c√©rebro e √†s vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturba√ß√Ķes, de transtornos √≠mpares, a loucura pol√≠tica, se afoga a intelig√™ncia, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-√° e exaltar-nos-√°; e o feito das nossas enfermidades, o seu prod√≠gio, ser√° tal que elas nos instituir√£o senhores de todos e de tudo.
À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz.

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Proposição das rimas do poeta

Incultas produ√ß√Ķes da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com m√°goa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e n√£o louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, l√°grimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela m√£o do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Os Cl√°ssicos da Literatura

As emo√ß√Ķes que a literatura suscita s√£o talvez eternas, mas os meios devem variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para n√£o perder a sua virtude. Desgastam-se √† medida que o leitor os reconhece. Da√≠ o perigo de afirmar que existem obras cl√°ssicas que o ser√£o para sempre.
Cada qual descr√™ da sua arte e dos seus artif√≠cios. Eu, que me resignei a p√īr em d√ļvida a indefinida dura√ß√£o de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde de um dos √ļltimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Cl√°ssico n√£o √© um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais m√©ritos. √Č um livro que as gera√ß√Ķes dos homens, motivadas por raz√Ķes diversas, l√™em com pr√©vio fervor e com uma misteriosa lealdade.

√Č indispens√°vel mostrar que a Causa Mon√°rquica est√° viva e que n√£o √© simplesmente uma rel√≠quia do passado. Podemos representar um grande papel, se a Causa se organizar: a ditadura militar que devemos continuar a apoiar, carece de uma for√ßa que n√£o tem, e que n√≥s, estando organizados, lhe podemos dar; a ditadura n√£o poder√° durar sempre, e ter√° de ser sucedida por qualquer coisa.

Soneto Para Eugênia

O tempo que te alonga todo dia
é duração que colhes na paisagem,
t√£o distante e t√£o perto em ventania,
sitiando limites na viagem.

Desse mar que se afasta em maresia
o vago em teu olhar se faz aragem
nas vagas que se v√£o em vaga via
vigia de teus pés no vão das margens.

E o fio da teia vai fugindo fosco,
irreparável névoa pressentida
nos livros que n√£o leste, nesses poucos

momentos que sobravam da medida.
Ang√ļstia de ponteiros, sol deposto,
no tédio das desoras foge a vida.

Vida que bem mereces por inteiro,
e é pouca a que te dou de companheiro.

Viver é Caminhar Breve Jornada

DESPREOCUPA√á√ÉO DO VIVER DISTRA√ćDO A QUEM A MORTE CHEGA INESPERADA

Viver é caminhar breve jornada,
e morte viva é, Lico, a nossa vida,
ontem p’ra o fr√°gil corpo amanhecida,
cada instante, no corpo sepultada.

Nada que, ao ser, é pouco, e será nada
em pouco tempo, que ambiciosa olvida;
pois, da vaidade mal persuadida,
deseja duração, terra animada.

Levada por um falso pensamento,
por esperança enganadora e cega,
tropeçará no próprio monumento.

Como o que, distraído, o mar navega,
e, sem se mover, voa com o vento,
e, antes que pense em abeirar-se, chega.

Tradução de José Bento

Ambiguidade e Acção

A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção.

A Realidade Transfigurada

N√£o quero ter a terr√≠vel limita√ß√£o de quem vive apenas do que √© pass√≠vel de fazer sentido. Eu n√£o: quero √© uma verdade inventada. O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e s√≥ ent√£o √© que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim, que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das ra√≠zes rebentando a terra, tenho por dom a paix√£o, na queimada de tronco seco contor√ßo-me √†s labaredas. A dura√ß√£o de minha exist√™ncia dou uma significa√ß√£o oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: re√ļno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos rel√≥gios.
Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articula√ß√Ķes novas em formas que se localizem aqu√©m e al√©m de minha hist√≥ria humana. Transfiguro a realidade e ent√£o outra realidade, sonhadora e son√Ęmbula, me cria. E eu inteira rolo e √† medida que rolo no ch√£o vou me acrescentando em folhas, eu, obra an√īnima de uma realidade an√īnima s√≥ justific√°vel enquanto dura a minha vida. E depois? depois tudo o que vivi ser√° de um pobre sup√©rfluo.
Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula.

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…N√£o sei quanto tempo este sonho vai durar, mas resolvo viver cada momento como se fosse o √ļltimo

O Prazer e a Dor

O prazer e a dor n√£o conhecem a dura√ß√£o. A sua natureza √© dissiparem-se rapidamente e, por conseguinte, s√≥ existirem sob a condi√ß√£o de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua. A sua diminui√ß√£o pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer. O prazer s√≥ √©, pois, um prazer sob a condi√ß√£o de ser descont√≠nuo. O √ļnico prazer um pouco dur√°vel √© o prazer n√£o realizado, ou desejo.
O prazer somente √© avali√°vel pela sua compara√ß√£o com a dor. Falar de prazer eterno √© um contra-senso, como justamente observou Plat√£o. Ignorando a dor, os deuses n√£o podem, segundo Plat√£o, ter prazer. A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseq√ľ√™ncia dessa lei fisiol√≥gica: ‚ÄúA mudan√ßa √© a condi√ß√£o da sensa√ß√£o‚ÄĚ. N√£o percebemos os estados cont√≠nuos, por√©m as diferen√ßas entre estados simult√Ęneos ou sucessivos. O tique-taque do rel√≥gio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por n√£o ser mais ouvido, e o moleiro n√£o ser√° despertado pelo ru√≠do das rodas do seu moinho, mas pelo seu parar.

√Č em virtude dessa descontinuidade necess√°ria que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, por√©m uma coisa neutra,

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Junta os Dons do Espírito às Vantagens do Corpo

Para ser amado, s√™ am√°vel, para o que n√£o bastar√° a beleza do rosto ou do corpo. Se pretendes conservar a tua amiga e n√£o teres nunca a surpresa de ser abandonado, mesmo que sejas Nireu, amado pelo velho Homero, ou o Hilas de delicada beleza que as N√°iades raptaram por meio de um crime, junta os dons do esp√≠rito √†s vantagens do corpo. A beleza √© um bem muito fr√°gil, tudo o que se acrescenta aos anos a diminui, murcha com a pr√≥pria dura√ß√£o. As violetas e os l√≠rios com as suas corolas abertas n√£o florescem sempre; e na rosa, depois de ca√≠da, s√≥ o espinho permanece. Tamb√©m tu, belo adolescente, cedo conhecer√°s cabelos brancos, cedo conhecer√°s as rugas que sulcam o teu corpo. Forma desde j√° um esp√≠rito que dure e fortalece a beleza; s√≥ ele subsiste at√© √† fogueira f√ļnebre.

Apto e Inapto, Verdade e Mentira

A dura√ß√£o, seja os s√©culos para as civiliza√ß√Ķes, seja os anos e as dezenas de anos para o indiv√≠duo, tem uma fun√ß√£o darwiniana de elimina√ß√£o do inapto. O que est√° apto para tudo √© eterno. √Č apenas nisto que reside o valor daquilo a que chamamos a experi√™ncia. Mas a mentira √© uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, permite ao inapto que existe em si sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam (bem como ao orgulho para sobreviver √†s humilha√ß√Ķes), e esta armadura √© como que segregada pelo inapto para prevenir uma situa√ß√£o de perigo (o orgulho, perante a humilha√ß√£o, adensa a ilus√£o interior). Subsiste na alma uma esp√©cie de fagocitose; tudo o que √© amea√ßado pelo tempo, para n√£o morrer, segrega a mentira e, proporcionalmente, o perigo de morte. √Č por isso que n√£o existe amor pela verdade sem uma admiss√£o ilimitada da morte. A cruz de Cristo √© a √ļnica porta do conhecimento.