Cita├ž├úo de

Desastre

Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;
Ca├şra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balou├ža as ├írvores das pra├žas,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgra├žas,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: “Homem n├úo desfale├ža!”
E um len├žo esfarrapado em volta da cabe├ža,
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

***
Findara honrosamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa crian├ža escrava,
E a gente da prov├şncia, at├┤nita, exclamava:
“Que provid├¬ncias! Deus! L├í vai para o hospital!”

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armaz├ęm de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas:
“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

***

O m├şsero a doen├ža, as priva├ž├Áes cru├ęis
Soubera repelir – ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar di├írios de dez-r├ęis.

Anoitecera ent├úo. O f├ęretro sinistro
Cruzou com um coup├ę seguido dum correio,
E um democrata disse: “Aonde ir├ís, ministro!
Comprar um eleitor? Adormecer num seio”?

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
– Conservador, que esmaga o povo com impostos -,
Mandava arremessar – que gozo! estar solteiro! –
Os filhos naturais ├á roda dos expostos…