Passagens sobre Personalidade

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Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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O Significado dos Sonhos

Os meu sonhos eram de muitas esp√©cies mas representavam manifesta√ß√Ķes de um √ļnico estado de alma. Ora sonhava ser um Cristo, a sacrificar-me para redimir a humanidade, ora um Lutero, a quebrar com todas as conven√ß√Ķes estabelecidas, ora um Nero, mergulhado em sangue e na lux√ļria da carne. Ora me via numa alucina√ß√£o o amado das multid√Ķes, aplaudido, desfilando ao longo (…), ora o amado das mulheres, atraindo-as arrebatadoramente para fora das suas casas, dos seus lares, ora o desprezado por todos embora o eleito do bem, por todos a sacrificar-me. Tudo o que lia, tudo o que ouvia, tudo o que via ‚ÄĒ cada ideia vinda de fora, cada (…), cada acontecimento era o ponto de partida de um sonho. Vinha de um circo e ficava em casa ousando imaginar-me um palha√ßo, com luzes em arco √† minha volta. Via soldados passarem na minha mente a falarem com uma vis√£o de mim pr√≥prio, tratando-me por capit√£o, chefiando, ordenando, vitorioso. Quando lia algo acerca de aventureiros imediatamente me convertia neles, por completo. Quando lia algo acerca de criminosos, morria por cometer crimes at√© me apavorar com o meu desarranjo mental. Conforme as coisas que via, ou ouvia, ou lia, vivia em todas as classes sociais,

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Para desenvolver as √°reas nobres da emo√ß√£o √© preciso aprender a gerir os pensamentos. Somente assim √© poss√≠vel reeditar o filme da nossa hist√≥ria registado na mem√≥ria e sofrer mudan√ßas substanciais na personalidade. Existimos para escalar o topo das montanhas, ainda que tenhamos de passar pelos vales da ansiedade e das frustra√ß√Ķes. √Č importante entendermos as causas do passado para reorganizarmos o presente, mas √© igualmente importante gerirmos os pensamentos e as emo√ß√Ķes do presente para acelerarmos o processo.

O Apogeu do Cobarde

Havia num partido um homem, que era demasiado medroso e cobarde para, alguma vez, contradizer os seus camaradas: empregavam-no para todos os servi√ßos, exigiam tudo dele, porque ele tinha mais medo da m√° opini√£o dos seus camaradas que da morte; era um lament√°vel esp√≠rito fraco. Eles reconheceram isso e fizeram dele, em virtude das circunst√Ęncias mencionadas, um her√≥i e, por fim, at√© um m√°rtir. Embora o cobarde, interiormente, dissesse sempre n√£o, com os l√°bios pronunciava sempre sim, mesmo j√° no cadafalso, ao morrer pelas ideias do seu partido: √© que, ao lado dele, estava um dos seus velhos camaradas, que o tiranizava tanto pela palavra e o olhar, que ele sofreu a morte realmente da maneira mais decente e, desde ent√£o, √© homenageado como m√°rtir e grande personalidade.

Uma Alma Amante e Terna

Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaix√£o, de tudo o que √© ternura e amor. Contudo, nenhuma alma h√° t√£o solit√°ria como a minha – solit√°ria, note-se, n√£o merc√™ de circunst√Ęncias exteriores, mas sim de circunst√Ęncias interiores. O que quero dizer √©: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau car√°cter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de ego√≠smo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena ac√ß√£o interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena ac√ß√£o externa, a sua manifesta√ß√£o. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrin√ßar, os elementos que constituem o meu car√°cter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada √† minha curiosidade por mim pr√≥prio e pelo meu car√°cter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.

Unicidade e Sacralidade da Vida

Experimentai a felicidade da dedica√ß√£o e entrega, a felicidade da mod√©stia e simplicidade e a felicidade da coopera√ß√£o e solicitude! Nenhum outro caminho vos conduz t√£o r√°pida e t√£o seguramente no sentido do conhecimento da unicidade e sacralidade da vida! Nenhum outro caminho t√£o-pouco vos conduz com tanta certeza ao objectivo da arte de viver, √† alegre supera√ß√£o do ego√≠smo – jamais atrav√©s da ren√ļncia da personalidade, mas mediante o seu mais elevado desenvolvimento.

Eu não renego o meu passado. Se tivesse que fazer tudo de novo, eu faria tudo de novo, porque é da minha personalidade. O legal é que eu aprendi.

Ser imoral n√£o vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do m√°ximo respeito alheio.

A auto-imagem é a essência da personalidade e do comportamento humano. Mude a auto-imagem, e ambos serão transformados.

São bem verdade as palavras do meu pai quando ele disse: todas as crianças têm que olhar pelo seu próprio crescimento. Os pais só podem dar bons conselhos ou colocar-nos nos caminhos correctos, mas a formação final da personalidade de uma pessoa reside nas suas próprias mãos.

O orgulho √© como um √≠man apontado constantemente para um objecto; a personalidade; por√©m, ao contr√°rio do √≠man – ela n√£o possui polo atractivo – repele em todas as direc√ß√Ķes.

Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.

O que é uma Pessoa Religiosamente Iluminada

Em vez de perguntar o que √© a religi√£o, prefiro perguntar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa que √© religiosamente iluminada parece-me algu√©m que, utilizando as suas melhores capacidades, se libertou das grilhetas dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupado com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se agarra devido ao seu estreito valor superpessoal. Parece-me que o que √© importante √© a for√ßa deste conte√ļdo superpessoal e a profundidade da convic√ß√£o relativa ao seu significado esmagador, independentemente de se fazer alguma tentativa para reunir este conte√ļdo com um ser divino, pois de outro modo n√£o seria poss√≠vel considerar Buda e Spinoza personalidades religiosas. De igual modo, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de que n√£o tem quaisquer d√ļvidas sobre o significado e o car√°cter desses objectos e fins superpessoais, que n√£o necessitam nem garantem uma fundamenta√ß√£o racional (…)
A ci√™ncia s√≥ pode ser criada por aqueles que est√£o profundamente imbu√≠dos de uma aspira√ß√£o de verdade e compreens√£o. Todavia, a origem deste sentimento nasce na esfera da religi√£o. A esta esfera pertence tamb√©m a f√© na possibilidade de as regula√ß√Ķes v√°lidas para o mundo real serem racionais,

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A Mudança só se Dá na Continuidade

Dirigirmo-nos a algu√©m com a miss√£o de que se transforme noutro, √© irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e s√≥ aceita uma mudan√ßa na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta altera√ß√£o possa entrar na unidade do seu esp√≠rito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudan√ßa se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enla√ßar-se nas suas recorda√ß√Ķes. Nem a um homem, nem a um povo – que, em certo sentido, tamb√©m √© um homem – se pode exigir uma mudan√ßa, que desfa√ßa a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mud√°-lo muito, quase at√© por completo; mas sempre, dentro da continuidade.
√Č certo que, em certos indiv√≠duos, acontece aquilo a que se chama mudan√ßa de personalidade; mas isso √© um caso patol√≥gico, e √© como tal que os psiquiatras o estudam. Nessas altera√ß√Ķes de personalidade, a mem√≥ria, base da consci√™ncia, arruina-se por completo e, ao pobre paciente, s√≥ resta, como substracto de continuidade individual – j√° que n√£o pessoal -, o organismo f√≠sico.

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Ocorreu-lhe que a vida toda de um homem era desempenhar um papel, e que achava perigoso abandonar, por um momento que fosse, sua falsa personalidade.

A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação.

A Intimidade na Amizade

Se dois homens ou duas mulheres t√™m de partilhar por algum tempo o mesmo espa√ßo (em viagem, numa carruagem-cama ou numa pens√£o superlotada), n√£o √© raro nascerem nessas situa√ß√Ķes amizades muito singulares. Cada um tem a sua maneira especial de lavar os dentes, de se curvar para descal√ßar os sapatos ou de encolher as pernas para dormir. A roupa interior, e o resto do vestu√°rio, embora semelhantes, revelam, no pormenor, in√ļmeras pequenas diferen√ßas a um olhar atento. A princ√≠pio – provavelmente devido ao individualismo excessivo do modo de vida actual – existe qualquer coisa como uma resist√™ncia semelhante a uma leve repugn√Ęncia e que rejeita uma aproxima√ß√£o maior, uma ofensa contra a pr√≥pria personalidade, at√© ao momento em que essa resist√™ncia √© superada para dar lugar a uma comunidade que revela uma estranha origem, como uma cicatriz. Muitas pessoas mostram-se, depois de uma tal transforma√ß√£o, mais alegres do que normalmente s√£o; a maior parte mais inofensivas; uma boa parte delas mais faladoras; e quase todas mais am√°veis. A sua personalidade mudou, quase se poderia dizer que foi trocada, subcutaneamente, por outra, menos marcada: no lugar do eu surge o primeiro ind√≠cio de um n√≥s, claramente sentido como um mal-estar e uma diminui√ß√£o,

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