Textos sobre Pessoas

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Textos de pessoas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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O Lucro de Um é Prejuízo de Outro

O ateniense Dêmades condenou um homem da sua cidade que tinha por ofício vender as coisas necessárias para os enterros, sob a alegação de que exigia um lucro excessivo e esse lucro não lhe podia vir sem a morte de muitas pessoas. Tal julgamento parece estar mal pronunciado, na medida em que não se obtém benefício algum a não ser com prejuízo de outrem, e que dessa maneira seria preciso condenar toda a espécie de ganho.
O mercador s√≥ faz bem os seus neg√≥cios por causa da devassid√£o dos jovens; o lavrador, pela carestia dos cereais; o arquitecto, pela ru√≠na das casas; os oficiais de justi√ßa, pelos processos e contendas dos homens; mesmo as honras e a actividade dos ministros da religi√£o prov√™m da nossa morte e dos nossos v√≠cios. Nenhum m√©dico se alegra com a sa√ļde mesmo dos seus amigos, diz o antigo c√≥mico grego, nem o soldado com a paz da sua cidade; e assim sucessivamente. E o que √© pior: cada um sonde dentro de si mesmo, e descobrir√° que a maioria dos nossos desejos √≠ntimos nascem e alimentam-se √†s expensas de outrem.
Considerando isso, veio-me à mente que nisso a natureza não contradiz a sua organização geral,

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Tornamo-nos Mais Objectivos Depois de Reconhecermos a Nossa Subjectividade

Toda a arte da psicologia ou da ci√™ncia da psicologia, se lhe quisermos chamar assim, √© baseada numa invers√£o do processo de objectividade. N√£o que n√£o possamos tornar-nos objectivos, mas que apenas possamos tornar-nos objectivos depois de termos confrontado as nossas atitudes n√£o objectivas, as nossas atitudes n√£o racionais. Atingir uma objectividade honesta significa termos de saber quais os pontos da nossa natureza que s√£o propensos a determinado preconceito, que parte de n√≥s √© defensiva, que parte de n√≥s distorce o que ouvimos. E √© necess√°ria uma tremenda auto-honestidade para come√ßar a remover essas distor√ß√Ķes e a clarificar a nossa vis√£o. De modo que s√≥ podemos atingir a objectividade depois de termos descoberto quais as √°reas da nossa psique que n√£o s√£o objectivas.
Além disso, o reconhecimento básico da psicologia é que, lá bem no íntimo, a maior parte da nossa vida é desconhecida da mente consciente e que, quanto mais nos tornamos consciente dela, mais honestos e mais objectivos nos podemos tornar. Nós não vemos os outros com clareza, e o que obscurece a nossa visão são os preconceitos que a pessoa supostamente objectiva se recusa a reconhecer. Uma pessoa objectiva diria que não é responsável pela guerra,

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As M√£es n√£o Descansam

Todas as pessoas t√™m direito a descanso, menos as m√£es. Para cada tarefa, profiss√£o ou encargo h√° direito a uma folga, menos para as m√£es. Se alguma m√£e demonstrar a m√≠nima fadiga de ser m√£e, haver√° logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecer√° para a p√īr em causa. N√£o √© m√£e, n√£o sabe ser m√£e, n√£o foi feita para ser m√£e, dir√°. Mas, se todas as pessoas t√™m direito a descanso, ser√° que as m√£es n√£o s√£o pessoas? A culpa √© nossa. Sim, a culpa √© das m√£es. Deix√°mos que fossem os filhos a definir-nos.

O Mal-Entendido Universal

O mundo s√≥ caminha atrav√©s do mal-entendido. √Č atrav√©s do mal-entendido universal que toda a gente se p√Ķe de acordo. Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam p√īr-se de acordo.
O homem de esp√≠rito, aquele que nunca se por√° de acordo com ningu√©m, deve aplicar-se a amar a conversa dos imbecis e a leitura dos maus livros. Extrair√° fun√ß√Ķes amargas que lhe compensar√£o largamente a fadiga.

Nenhum Prazer é um Mal em Si

Nenhum prazer √© um mal em si, mas certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior n√ļmero de males que de prazeres. Se as coisas que proporcionam prazeres √†s pessoas dissolutas pudessem livrar-lhe o esp√≠rito das ang√ļstias que experimentam diante dos fen√≥menos celestes, da morte e dos sofrimentos, e se, por outro lado, lhes ensinassem o limite dos desejos, nada teriamos de censurar nelas, pois que as cumulariam de prazeres, sem mistura alguma de dor ou pesar, os quais constituem precisamente o mal.

A Cultura Portuguesa e o Provincianismo

A cultura portuguesa tem um amor fatal pelo provincianismo. O provincianismo √© a forma mais ¬ęengag√©e¬Ľ de existir socialmente e literariamente. Da√≠ a impossibilidade, ou melhor, o medo de se realizar sequer um realismo a s√©rio, porquanto este exige uma descida ao inferno e n√£o vejo por a√≠ quem se atreva al√©m do purgat√≥rio. Fica-se assim na meia tinta do naturalismo, retratando quadros convencionais de uma sociedade provinciana onde, al√©m da j√° muito conhecida injusti√ßa social (repar√°vel pela economia e n√£o pela literatura), nada se capta que possa sugerir a simples viol√™ncia de se estar no mundo. Provincianismo chama-se ainda √†quela nossa atitude que toma muito a s√©rio ou, ainda, solenemente, tudo o que faz, tornando invi√°vel uma literatura que desmonte eficazmente a engrenagem humana e social pela incomplacente investida de um humor cruel. Houve recentes tentativas queirozianas para denunciar as fraquezas do meio. Conseguiu-se fazer realismo desta vez? Tamb√©m n√£o, porque se fez realismo de empr√©stimo, de segunda m√£o, colhido no ¬ędiz-se diz-se¬Ľ das esquinas. Escreveu-se razoavelmente m√°-l√≠ngua, mas n√£o se agitaram as pessoas e as institui√ß√Ķes de forma a tornar vis√≠vel o lodo depositado no fundo. Isto quanto aos que fazem profiss√£o de f√© de realismo social ou burgu√™s.

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A Fonte da Harmonia

A boa disposi√ß√£o e a alegria de um c√£o, o seu amor incondicional pela vida e a prontid√£o dele para a celebrar a todo o momento contrasta muito com o estado de esp√≠rito do dono – deprimido, ansioso, sobrecarregado de problemas, perdido em pensamentos, ausente do √ļnico lugar e do √ļnico tempo que existe: o Aqui e o Agora. E uma pessoa interroga-se: vivendo com algu√©m assim, como consegue o c√£o manter-se t√£o equilibrado e s√£o, t√£o cheio de alegria?

Quando apreendemos a Natureza apenas através da mente, do pensamento, não somos capazes de sentir a sua força de viver e de existir. Vemos somente a parte física, a matéria, e não nos apercebemos da vida interior Рo mistério sagrado. O pensamento reduz a Natureza a uma mercadoria que se usa na busca de benefícios ou de conhecimento ou de qualquer outro fim utilitário. A floresta ancestral passa a ser vista apenas como madeira, o pássaro como um objecto de investigação, a montanha como alguma coisa para se explorar ou conquistar.

Quando se apreende a Natureza, deve-se permitir que hajam momentos sem pensamento, sem a intervenção da mente. Ao aproximarmo-nos da Natureza desta maneira, ela responde-nos e,

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N√£o Existem Pessoas Totalmente Ocas

Nunca encontrei uma pessoa oca. Nunca encontrei uma vida sem significado quando se procura realmente o seu significado. √Č esse o perigo de dizer que n√£o procuramos, porque foi assim que cheg√°mos ao ponto em que sentimos que a vida n√£o tinha qualquer significado. Bem v√™, n√≥s repudi√°mos tantas formas de terapia. Quer dizer, tantos de n√≥s repudiam actualmente a filosofia, a religi√£o ou qualquer outro padr√£o que nos mantinha coesos anteriormente. Repudi√°mos tudo. At√© repudi√°mos a terapia da arte. Por isso n√£o nos restou realmente mais que olhar para dentro, e os que o fazem descobrem que toda a vida tem significado porque a vida tem significado. Fomos seriamente prejudicados por pessoas que disseram que a vida era irracional e de qualquer modo n√£o significava nada. Mas assim que come√ßamos a olhar, descobrimos o padr√£o e descobrimos a pessoa. Nunca encontrei aquilo a que se poderia chamar uma pessoa totalmente oca.

Nada é Verdadeiramente Satisfatório

Nada √© verdadeiramente satisfat√≥rio. Mesmo a arte a que um artista √© vocacionado, e sobre a qual e para a qual vive, est√° sempre aqu√©m do seu desejo. Nunca atinge aquele n√≠vel, aquele andar que desejaria. Est√° sempre a tentar, a aproximar-se do limite das possibilidades. No fundo, do absoluto. Um absoluto que se n√£o atinge, [que se] ignora mesmo. A √ļnica coisa que sabemos ao certo √©: ningu√©m nasce sen√£o para morrer. Morrer mais cedo ou morrer mais tarde. Tem esse privil√©gio: acabar com a vida antes do fim natural dela. Se estiver desesperado, acontece. Justamente quando perde a esperan√ßa. Quando perde a esperan√ßa, perdeu tudo, e ent√£o liquida-se.

[Pensou alguma vez? Houve algum momento na sua vida t√£o desesperan√ßado? Teve tantos reveses…]

Não. Suponho que ninguém deixa de pensar na morte. E quando se chega à minha idade, está-se mais consciente de que se aproxima o fim. Portanto, ele tem que se preparar para esse final. Há muita gente que conheci que se suicidou por isto ou por aquilo. E há o problema da eutanásia, quando o sofrimento é muito grande, a experiência é nula e as pessoas não podem sequer matar-se, têm que pedir que alguém as mate.

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As Verdadeiras Qualidades ao Alcance de qualquer Ser Humano

Ao avaliar o nosso progresso como indiv√≠duos, tendemos a concentrar-nos nos factores externos como a nossa posi√ß√£o social, a influ√™ncia e a popularidade, a riqueza e o n√≠vel de instru√ß√£o. Como √© evidente, s√£o importantes para medir o nosso sucesso nas quest√Ķes materiais, e √© bem compreens√≠vel que muitas pessoas se esforcem principalmente por alcan√ßar todos eles. Mas os factores internos podem ser ainda mais cruciais para determinar o nosso desenvolvimento como seres humanos. A honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a pura generosidade, a aus√™ncia de vaidade, a prontid√£o para servir os outros – qualidades que est√£o facilmente ao alcance de qualquer criatura -, formam a base da nossa vida espiritual.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Os Verdadeiros Males

Vejo uma objec√ß√£o a qualquer esfor√ßo para melhorar a condi√ß√£o humana: √© que os homens s√£o talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Cal√≠gula se mantiver irrealiz√°vel e todo o g√©nero humano se n√£o reduzir a uma √ļnica cabe√ßa oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem d√ļvida que o nosso interesse ser√° servi-lo. O meu processo baseava-se numa s√©rie de observa√ß√Ķes feitas desde h√° muito tempo em mim pr√≥prio: toda a explica√ß√£o l√ļcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande aten√ß√£o √†s pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem √© exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, √© como recusar a alimenta√ß√£o necess√°ria a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabund√Ęncia. Quando se tiver diminu√≠do o mais poss√≠vel as servid√Ķes in√ļteis, evitado as desgra√ßas desnecess√°rias, continuar√° a haver sempre, para manter vivas as virtudes her√≥icas do homem, a longa s√©rie de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doen√ßas incur√°veis, o amor n√£o correspondido,

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O Primeiro Beijo

Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.

Naquela noite, fiquei a esper√°-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pens√£o. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma √ļnica forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os bra√ßos dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao c√©u claro da noite. E faltou uma batida ao cora√ß√£o.

O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer.

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Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

Símios Aperfeiçoados II

A trag√©dia √© a cristaliza√ß√£o da massa humana, t√£o perigosa como a estagna√ß√£o do esp√≠rito do homem que se torna acad√©mico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro pr√≥ximo – em rela√ß√Ķes antropol√≥gicas o pr√≥ximo leva geralmente centenas de anos – transformar-se-√° num novo espect√°culo de jardim zool√≥gico. Em vez de jaula e aldeias de s√≠mios, ele ter√° balne√°rios p√ļblicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dar√° palmas em del√≠rio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto m√°ximo de intelig√™ncia paquid√©rmica. Ter√° circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o t√©dio da fam√≠lia aos domingos, circular√° repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem √© diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes,

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A Verdade Está à Frente do Nosso Nariz

N√≥s j√° esquecemos completamente o axioma de que que a verdade √© a coisa mais po√©tica no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: √© ainda mais fant√°stica que aquilo que a mente humana √© capaz de fabricar ou conceber… de facto, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana √© capaz de mentir e acreditar em algo mais compreens√≠vel que a verdade, e √© isso que prevalece por todo o mundo. Durante s√©culos a verdade ir√° continuar √† frente do nariz das pessoas mas estas n√£o a tomar√£o: ir√£o persegui-la atrav√©s da fabrica√ß√£o, precisamente porque procuram algo fant√°stico e ut√≥pico.

Nunca Te Intitules Filósofo

Nunca te intitules Filósofo nem fales demasiado sobre os Princípios com os iletrados; faz, antes, o que deles decorre. Assim, num banquete, não discutas como devem as pessoas comer, mas come como é devido. Lembra que Sócrates evitava inteiramente a ostentação. As pessoas vinham a ele encaminhadas a filósofos, e ele próprio as encaminhava, tão bem suportava ser desdenhado. Da mesma maneira, se alguma conversa relativa a princípios ocorrer entre os iletrados, procura guardar silêncio. Pois corres o risco de vomitar o que digeriste mal. E quando alguém te disser que não sabes nada e tu não te apoquentares com isso, podes estar certo que estás finalmente no bom caminho.

Da Profundidade do Espírito

A profundeza √© o termo da reflex√£o. Quem quer que tenha o esp√≠rito verdadeiramente profundo, deve ter a for√ßa de fixar o pensamento fugidio; de ret√™-lo sob os olhos para considerar-lhe o fundo, e reduzir a um ponto uma longa cadeia de ideias; √© principalmente √†queles a quem esse esp√≠rito foi dado que a clareza e a justeza s√£o necess√°rias. Quando lhes faltam essas vantagens, as suas vistas ficam embara√ßadas com ilus√Ķes e cobertas de obscuridades. No entanto, como tais esp√≠ritos v√™em sempre mais longe do que os outros nas coisas da sua al√ßada, julgam-se tamb√©m mais pr√≥ximos da verdade do que os demais homens; mas estes, n√£o os podendo seguir nas suas sendas tenebrosas, nem remontar das consequ√™ncias at√© a altura dos princ√≠pios, s√£o frios e desdenhosos para com esse tipo de esp√≠rito que n√£o podem mensurar.
E, mesmo entre as pessoas profundas, como algumas o são em relação às coisas do mundo e outras nas ciências ou numa arte particular, preferindo cada qual o objecto cujos usos melhor conhece, isso também é, de todos os lados, matéria de dissensão.
Finalmente, nota-se um ci√ļme ainda mais particular entre os esp√≠ritos vivazes e os esp√≠ritos profundos, que s√≥ possuem um na falta do outro;

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Tudo Tem de Ser a Favor da Humanidade

Quando fiz o Crist√≥v√£o Colombo, e depois fiz uma apresenta√ß√£o em Fran√ßa, defendi que a hip√≥tese de o navegador ter nascido em Portugal n√£o era uma quest√£o de patriotismo. O m√©rito est√° na pessoa, seja ela de que nacionalidade for. E o m√©rito de qualquer pessoa d√° m√©rito √† na√ß√£o a que pertence, e d√° m√©rito √† humanidade. Essas figuras n√£o s√£o cativas delas pr√≥prias. √Č isto o fundo humanista, porque tudo tem de ser a favor da humanidade. Se for contra, √© mau. Isso √© muito importante. √Č assim que, quando um realizador portugu√™s recebe um pr√©mio, est√° a receb√™-lo a cinematografia portuguesa, est√° a receb√™-lo Portugal, a Europa, o mundo cinematogr√°fico. Isto n√£o √© assim t√£o individual como parece. Quando se fala muito de Cam√Ķes, estamos a falar dos portugueses, mas tamb√©m do m√©rito dos humanos. As pessoas est√£o obcecadas com o patriotismo: “Eu √© que sou.” N√£o √© nada disso. O humanismo √© que √© fundamental e, √†s vezes, √© esquecido. Mesmo nos partidos pol√≠ticos, que muitas vezes caem no sectarismo. A natureza humana, em qualquer um dos partidos, √© sempre a mesma. N√£o muda. √Č nela que est√° o mal e o bem. Mas concordo com a exist√™ncia dos partidos,

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