Citação de

Falar Sempre, Pensar Nunca

Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos √ļltimos rinc√Ķes, a cultura organizada corta aos homens o acesso √† derradeira possibilidade da experi√™ncia de si mesmo. E esclarecimento j√° pronto transforma n√£o s√≥ a reflex√£o espont√Ęnea, mas o discernimento anal√≠tico, cuja for√ßa √© igual √† energia e ao sofrimento com que eles se obt√™m, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da hist√≥ria individual, que o m√©todo ortodoxo se inclina j√° a reduzir a f√≥rmulas, em vulgares conven√ß√Ķes.
At√© a pr√≥pria dissolu√ß√£o das racionaliza√ß√Ķes se torna racionaliza√ß√£o. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, depend√™ncia materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, s√£o pouco menos que incompreens√≠veis. O horror em face ao abismo do eu √© eliminado mediante a consci√™ncia de que n√£o se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto amea√ßador. S√£o aceites; n√£o sanados, mas encaixados somente na superf√≠cie da vida normalizada como seu ingrediente inevit√°vel. S√£o, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identifica√ß√£o do indiv√≠duo com a inst√Ęncia social; tal mecanismo j√° h√° muito definiu as condutas pretensamente normais. Em vez da catarse, cujo √™xito √©, de qualquer modo, duvidoso, surge a conquista do prazer de at√© na pr√≥pria debilidade ser um exemplar da maioria e conseguir assim n√£o tanto, como outrora os internados nos sanat√≥rios, o prest√≠gio do interessante estado patol√≥gico quanto, justamente em virtude daquelas defici√™ncias, de se mostrar como nela integrado e transferir para si o poder e a grandeza do colectivo. O narcisismo, que com a decad√™ncia do eu fica privado do seu objecto libidinal, √© substitu√≠do pelo prazer masoquista de n√£o mais ser um eu, e a gera√ß√£o ascendente vela pela sua aus√™ncia de eu com mais zelo do que por algum dos seus bens, como se fosse uma posse comum e duradoura.