Citação de

O Desejo do Homem é Contrário à Sua Unidade

Houve tempo em que o homem inventou o amor cort√™s para n√£o perder a intimidade das mulheres. Elas estavam a ser atra√≠das pela formid√°vel influ√™ncia da Igreja que as recebia permitindo-lhes uma personalidade est√°vel. As mulheres amam essa personalidade est√°vel que Freud soube preservar nas suas rela√ß√Ķes com Marta, a mulher de toda a sua vida. Ler a correspond√™ncia de Freud com Marta √© muito salutar neste mundo a abarrotar de esgotamentos nervosos e falsas ou reais confid√™ncias. Um dos seus clientes (Schonberg) causava-lhe grande preocupa√ß√£o. Um dia, a cunhada, vendo o doente cumprimentar uma senhora, disse: ¬ęO facto de ele ser outra vez bem educado com as mulheres √© tamb√©m um √≠ndice de melhoria¬Ľ. Freud n√£o deixa de referir isto, que corresponde a uma personalidade vener√°vel. As mulheres acham que √© sinal de normalidade serem tratadas com cortesia. O desejo n√£o lhes diz nada, comparado com uma palavra doce e conveniente. Isto n√£o √© uma s√≠ntese do comportamento dos homens e das mulheres. Mas sim uma certeza – o que n√£o pro√≠be toda a esp√©cie de averbamentos necess√°rios √† verdade.

Nietzsche, imoralista por defini√ß√£o, disse que n√£o h√° nada mais contr√°rio ao gosto do que o homem que deseja. √Č certo que o homem, nas suas ac√ß√Ķes, na sua bravura animal, mesmo perdido no labirinto dos sentidos, nos parece admir√°vel e digno de encorajamento. Mas sabemos que o desejo √© o seu lado mais an√°rquico e contr√°rio √† unidade do pr√≥prio homem. As mulheres reconhecem isso e desacreditam tanto o homem que deseja, como o que √© desej√°vel. Entretanto, √© uma quest√£o de gosto iludirmo-nos sobre o gosto. E sobre o desejo tamb√©m.