Citação de

Em Todas as Sociedades Existe um Impulso Para a Conformidade

A imposi√ß√£o de padr√Ķes pelas sociedades aos seus extremamente diversificados indiv√≠duos tem variado muito em diferentes per√≠odos hist√≥ricos e diferentes n√≠veis de cultura. Nas culturas mais primitivas, onde as sociedades eram pequenas e ligadas a tradi√ß√Ķes muito estreitas, a press√£o para o conformismo era naturalmente muito intensa. Quem ler literatura de antropologia ficar√° espantado com a natureza fant√°stica de algumas das tradi√ß√Ķes √†s quais os homens tiveram de se adaptar. A vantagem de uma sociedade grande e complexa como a nossa √© permitir √† variedade de seres humanos expressar-se de muitas maneiras; n√£o precisa de haver uma adapta√ß√£o intensa, como a que encontramos em pequenas sociedades primitivas. Mesmo assim, em toda a sociedade h√° sempre um impulso para a conformidade, imposto de fora pela lei e pela tradi√ß√£o, e que os indiv√≠duos imp√Ķem sobre si mesmos, tentando imitar o que a sociedade considera o tipo ideal.
A esse respeito, recomendo um livro muito importante do fil√≥sofo franc√™s Jules de Gaultier, publicado h√° cerca de cinquenta anos, chamado “Bovarismo”. O nome vem da hero√≠na do romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, no qual essa jovem mulher infeliz sempre tentava ser o que n√£o era. Gaultier generaliza isso e diz que todos temos tend√™ncia a tentar ser o que n√£o somos, a querer ser o que a sociedade na qual crescemos julga desej√°vel. Ele diz que todo mundo tem um “√Ęngulo bovar√≠stico”, e que o de algumas pessoas √© bastante estreito; aquilo que elas s√£o intrinsecamente, pela hereditariedade, n√£o difere muito do que tentam fazer de si mesmas pela imita√ß√£o. Mas algumas pessoas t√™m √Ęngulos bovar√≠sticos de noventa graus, outras at√© de cento e oitenta, e tentam ser exactamente o oposto daquilo que s√£o por natureza. Os resultados s√£o em geral desastrosos.

Mesmo assim, um dos mecanismos através dos quais a sociedade consegue que as pessoas se conformem a ela é criar um ideal e fazer com que as pessoas o imitem voluntariamente. ( Não é por nada que o livro provavelmente mais lido e mais influente da devoção cristã se chama Imitação de Cristo ). Infelizmente, como vemos muito bem pelo estudo da delinquência juvenil, nem sempre o ideal que imitamos é o melhor. Há a imitação de Al Capone, infelizmente, e a imitação do jovem duro que anda por aí a porrada nas pessoas; há imitação de cantores de rock-and-roll, e assim por diante. O processo sempre existe, em qualquer sociedade, e sempre existirá. O que devemos descobrir é algum método para aproveitar ao máximo esse impulso social de conformidade, salvaguardando, ao mesmo tempo, a variabilidade genética dos indivíduos.

(…) Em primeiro lugar, liberdade e toler√Ęncia s√£o de enorme import√Ęncia, e, em segundo lugar, um ambiente decente ‚ÄĒ igual para todos e melhorando igualmente para todos ‚ÄĒ √© decisivo. √Č vital n√£o pressionar pessoas geneticamente diferentes para que sejam como todo o mundo, e, dentro dos limites da lei e da ordem, tentar e permitir que todo o indiv√≠duo se desenvolva conforme as leis do seu pr√≥prio ser, e conforme o princ√≠pio religioso de que a alma individual √© infinitamente valiosa. O nosso ideal deveria ser o que o fil√≥sofo de Chicago, Charles Morris, descreveu no seu livro “The Open Self”: uma sociedade aberta, constitu√≠da de eus abertos.