Citação de

O Talento na Juventude e na Velhice

Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade. Não. Nem da mocidade, nem da velhice. Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém. Nunca compreendi a hostilidade tradicional entre velhos e moços (que aliás enche a história das literaturas); e não percebo a razão por que os homens se lançam tantas vezes recíprocamente em rosto, como um agravo, a sua velhice ou a sua juventude.
Ser idoso não quer dizer que se seja necessáriamente intolerante e retrógado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si só, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a história da ciência e contribuiram para o progresso humano são, em geral, obra dos velhos sábios; e a mocidade literária, negando embora sistemáticamente o passado, é nele que se inspira, até que o escritor adquire (quando adquire) personalidade própria.
(…) A mocidade, em geral, n√£o cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice n√£o se op√Ķem; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida n√£o √© s√≥ o entusiasmo dos mo√ßos; nem s√≥ a reflex√£o dos velhos; n√£o est√° apenas na aud√°cia de uns, nem apenas na experi√™ncia dos outros; realiza-se pela magn√≠fica integra√ß√£o das virtudes contr√°rias, sem a qual n√£o seria poss√≠vel, em todo o seu esplendor, a marcha da humanidade. Que se ganha em cavar um abismo entre mocidade e velhice, se uma √©, fatalmente, o prolongamento da outra; se o que passa de m√£o em m√£o √©, afinal, o mesmo facho aceso, como na corrida ritual da Gr√©cia antiga; e se, bem vistas as coisas, n√£o est√° de nenhum modo provado que os novos sejam intelectualmente os mais novos, e os velhos os mais velhos?

(…) Como admitir o div√≥rcio entre novos e velhos – inven√ß√£o antinatural dos convent√≠culos liter√°rios de todos os tempos -, se os velhos t√™m nas novas gera√ß√Ķes, penhor radioso do futuro, o instrumento de compreens√£o e de difus√£o da sua obra, e se os novos devem aos velhos a forma√ß√£o do seu esp√≠rito, a educa√ß√£o da sua sensibilidade e a opulenta capitaliza√ß√£o de riquezas da l√≠ngua em que se expressam?
A paz entre idades suceder√° um dia, decerto, √† paz entre as na√ß√Ķes – quando a velhice ego√≠sta reconhecer, finalmente, que n√£o deve menosprezar os mo√ßos, antes facilitar-lhe o caminho da vida, e quando, por seu turno, a juventude impaciente chegar √† convic√ß√£o de que n√£o √© atropelando nem injuriando que se vence, e de que, quando os jovens se instalaram no planeta – j√° os velhos o habitavam.