O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
n√£o ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).

A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal n√£o era ent√£o
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paix√£o,
n√£o curava do seu gado.

E como em a baixeza
do sangue q e pensamento
√© certa esta certeza ‚Äď
cuidar que o merecimento
est√° s√≥ em ter riqueza ‚Äď
enqueriram que teriam
e do amor n√£o curaram;
em que bem se descontaram
riquezas, se faleciam,
por males que sobejaram.

Ent√£o, descontentes disto,
levaram-na a longes terras
esconderam-na entre umas serras,
onde o sol n√£o era e visto
e a Crisfal deixaram guerras.
Além da dor principal,
pera mor pena lhe dar,
puseram-na em lugar
mau para dizer seu mal,
mas bom pera o chorar.

Ali os dias passava
em mágoas, da alma saídas,
dizer a quem longe estava,
e chorava por perdidas
as horas que n√£o chorava.
Em vale mui solit√°rio e
sombrio e saudoso,
send’o monte temeroso
pera o choro necess√°rio
pera a vida mui danoso,

Dizer o que ele sentia,
em que queira, n√£o me atrevo,
nem o chorar que fazia;
mas as palavras que escrevo
s√£o as que ele dizia.
Ali sobre uma ribeira
de mui alta penedia,
donde a √°gua d’alto ca√≠a,
dizendo desta maneira
estava a noite e o dia:

¬ęOs tempos mudam ventura
bem o sei, pelo passar;
mas, por minha gram tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
N√£o mudam tempos nem anos
ao triste a tristeza;
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

Coitado de mim, cuitado
pois meu mal n√£o se amansa
com choro nem com cuidado!
Quem diz que o chorar descansa
é de ter pouco chorado;
que, quando as l√°grimas s√£o
por igual da causa delas,
vir√° descanso por elas;
mas como descansar h√£o
pois que s√£o mais as querelas?

Com tudo, olhos de quem
n√£o vive fazendo al,
chorai mais que os de ninguém,
que o que é para maior mal
tenho j√° para maior bem.
L√°grimas, manso e manso,
prossigam em seu ofício;
que não façam beneficio :
n√£o servindo de descanso,
servirão de sacrifício.

Minhas l√°grimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem t√£o aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade,
que esta vos n√£o faltar√°.
Mas isto como ser√°?
Pedi-la-ei à saudade,
e a saudade ma dar√°.

Todos os contentamentos
da minha vida passaram,
e em fim n√£o me ficarom
sen√£o descontentamentos
que de mim se contentaram.
Destes, polo meu pecado
(inda que nunca pequei
a e quem amo e amarei),
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e j√° agora esperar
não ousa minha esperança,
por me mais n√£o magoar.
Se por isto desmereço,
dê-se-me a culpa assim
e seja só com a fim,
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.

Meu coração, vós abristes
caminho a meus cuidados,
pera virem a ser banhados
na √°gua de meus olhos tristes,
tristes, mal galardoados.
Necessário é que vamos
algum remédio buscar
para se a vida acabar .
est’√© bem que desejamos,
est’√© nosso desejar.

Iremos pela estrada
por onde os tristes v√£o
porque nela, por raz√£o
deve ser de nós achada,
achada consolação.
Sobir-me-ei ao pensamento
qu’√© alto; de ali verei
verei eu se poderei
ver algum contentamento
de quantos perdidos hei.

Mas o que poder√° ver
quem j√° da vista cegou?
Porque quem me a mim levou
meu alongado prazer
nenhum bem ver me deixou.
Deixou-me em escuridade
um mal sobre outro sobejo,
pelo que triste me vejo
tam longe da liberdade
como do bem que desejo.

Verei a vida, que em vida
bem vista tanto aborrece
aborrece a quem padece
tristeza mal merecida,
que minha fé mal merece.
Levarom-me toda a glória,
com quanto bem dessejei,
dessejei e alcancei;
ficou-me só a memória,
por dor, de quanto passei.

Lembrança do bem passado,
que n√£o devera passar,
esta me h√°-de matar;
d√°-me tal dor o cuidado,
que se n√£o pode cuidar.
Nada, se n√£o for a morte,
me dar√° contentamento:
segundo sei do que sento,
n√£o sento prazer t√£o forte
que conforte meu tormento.