Citação de

A Diferença entre Ficção e Crença

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o stock primitivo de ideias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas ideias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca. Ela pode inventar uma série de eventos com toda a aparência de realidade, pode atribuir-lhes um tempo e um lugar particulares, concebê-los como existentes e des­crevê-los com todos os pormenores que correspondem a um facto histórico, no qual ela acredita com a máxima certeza. Em que consiste, pois, a diferença entre tal ficção e a crença?
Ela não se localiza sim­plesmente numa ideia particular anexada a uma concepção que obtém o nosso assentimento, e que não se encontra em nenhuma ficção conhecida. Pois, como o espírito tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia voluntariamente anexar esta ideia particular a uma ficção e, por conseguinte, seria capaz de acreditar no que lhe agradasse, embora se opondo a tudo que encontramos na experiência diária. Po­demos, quando pensamos, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo, mas não está em nosso poder acreditar que semelhante animal tenha alguma vez existido.
Conclui-se, portanto, que a diferen√ßa entre a fic√ß√£o e a cren√ßa se localiza em algum sentimento ou maneira de sentir, anexado √† √ļltima e n√£o √† primeira, que n√£o depende da vontade e n√£o pode ser mani¬≠pulado a gosto.
√Č preciso que a natureza a desperte como os outros sentimentos; √© preciso que ela nas√ßa da situa√ß√£o particular em que o esp√≠rito se encontra em cada conjuntura particular. Todas as vezes que um objeto se apresenta √† mem√≥ria ou aos sentidos, pela for√ßa do costume, a imagina√ß√£o √© levada imediatamente a conceber o objeto que lhe est√° habitualmente unido; esta concep√ß√£o √© acompanhada por uma maneira de sentir ou sentimento, diferente dos vagos devaneios da fantasia. Eis toda a natureza da cren√ßa.

Visto que a nossa mais firme crença sobre qualquer facto sempre admite uma concepção que lhe é contrária, não haveria, portanto, nenhuma diferença entre o nosso assentimento ou rejeição de qualquer concepção, se não houvesse algum sentimento distinguindo uma da outra. Se vejo, por exemplo, uma bola de bilhar deslizar em direção de outra numa mesa polida, posso imaginar com clareza que uma parará ao chocar-se com a outra. Esta concepção não implica contradição, porém sinto-a muito diferente da concepção pela qual me represento o impulso e a comunicação do movimento de uma bola a outra.

Se tent√°ssemos uma defini√ß√£o deste sentimento, ver√≠amos, talvez, que se trata de tarefa muito dif√≠cil, sen√£o imposs√≠vel; da mesma ma¬≠neira como se tent√°ssemos definir a sensa√ß√£o de frio ou a paix√£o de c√≥lera a uma criatura que nunca teve a experi√™ncia destes sentimentos. Cren√ßa √© o nome verdadeiro e pr√≥prio desta maneira de sentir; nin¬≠gu√©m jamais se encontra em dificuldade para saber o significado da¬≠quele termo, porque cada um est√°, em todo o momento, consciente do sentimento que representa. Sem d√ļvida, n√£o seria impr√≥prio tentar uma descri√ß√£o deste sentimento esperando chegar, por este meio, a algumas analogias que poderiam fornecer uma explica√ß√£o mais per¬≠feita. Digo, pois, que a cren√ßa n√£o √© nada sen√£o uma concep√ß√£o de um objecto mais vivo, mais vivido, mais forte, mais firme e mais est√°vel que aquela que a imagina√ß√£o, por si s√≥, seria capaz de obter. Uso esta variedade de termos, embora t√£o pouco filos√≥fica, com a √ļnica inten√ß√£o de exprimir este acto de esp√≠rito que nos revela realidades, ou que se considera como tal, mais presentes a n√≥s que as fic√ß√Ķes, que as faz pensar mais no pensamento e lhes d√° uma influ√™ncia superior √†s pai¬≠x√Ķes e √† imagina√ß√£o. Desde que concordamos no tocante √† coisa, √© desnecess√°rio discutir acerca dos termos.

A imagina√ß√£o governa todas as suas ideias e pode uni-las, mistur√°-las e vari√°-las de todas as formas poss√≠veis. Pode conceber objectos fict√≠cios em todas as situa√ß√Ķes de espa√ßo e de tempo. Pode coloc√°-los de certa maneira diante dos nossos olhos com as suas pr√≥prias cores, exactamente como se houvessem exis¬≠tido. Mas, como √© imposs√≠vel que essa faculdade da imagina√ß√£o possa jamais, por si mesma, converter-se em cren√ßa, √© evidente que a cren√ßa n√£o consiste na natureza particular ou na ordem da ideias, mas na maneira como o esp√≠rito as concebe e as sente. Confesso que √© impos¬≠s√≠vel explicar com perfei√ß√£o este sentimento ou esta maneira de con¬≠ceber. Podemos usar palavras que expressam algo parecido. Mas o seu nome verdadeiro e pr√≥prio, como j√° dissemos, √© cren√ßa: termo que cada um compreende suficientemente na vida corrente.

Em filosofia, n√£o podemos ir al√©m da seguinte afirma√ß√£o: cren√ßa √© qualquer coisa sentida pelo esp√≠rito, que distingue as ideias dos ju√≠zos das fic√ß√Ķes da imagina√ß√£o. Ela d√°-lhes maior peso e influ√™ncia; faz parec√™-las de maior import√Ęncia; refor√ßa-as no esp√≠rito e estabelece-as como prin¬≠c√≠pios directivos das nossas a√ß√Ķes. Ou√ßo agora, por exemplo, a voz de uma pessoa conhecida, e o som parece vir do quarto cont√≠guo. Esta impress√£o dos meus sentidos conduz imediatamente o meu pensamento √† pessoa e, ao mesmo tempo, a todos os objectos circundantes. Eu pinto-os para mim mesmo como existentes actualmente e com as pr√≥prias qualidades e rela√ß√Ķes que j√° sabia que possu√≠am. Estas ideias apo¬≠deram-se do meu esp√≠rito mais depressa que as ideias de um castelo encantado. Sinto-as de modo muito diferente, e a sua influ√™ncia √© bem maior, em todos os pontos de vista, tanto para produzir prazer e dor como alegria e tristeza.